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sexta-feira, 9 de março de 2012
Reinações de Narizinho - A pílula falante
A pílula falante No outro dia a menina levantou-se muito cedo para levar a boneca aoconsultório do doutor Caramujo. Encontrou-o com cara de quem havia comido umurutu recheado de escorpiões. — Que há, doutor? — Há que encontrei o meu depósito de pílulas saqueado. Furtaram-metodas... — Que maçada! — exclamou a menina aborrecidíssima. – Mas não podefabricar outras? Se quiser, ajudo a enrolar. — Impossível. Já morreu o besouro boticário que fazia as pílulas, sem haver revelado o segredo a ninguém. A mim só me restava um cento, das mil que compreidos herdeiros. O miserável ladrão só deixou uma — e imprópria para o caso porquenão é pílula falante.
— E agora? — Agora, só fazendo uma certa operação. Abro a garganta da boneca muda e ponho dentro uma falinha, respondeu o doutor, pegando na sua faca de ponta paraamolar. Já providenciei tudo. Nesse momento ouviu-se grande barulheira no corredor. — Que será? — indagou a menina surpresa. — É o papagaio que vem vindo — declarou o doutor. — Que papagaio, homem de Deus? Que vem fazer aqui esse papagaio?Mestre Caramujo explicou que como não houvesse encontrado suas pílulasmandara pegar um papagaio muito falador que havia no reino. Tinha de matá-lo paraextrair a falinha que ia pôr dentro da boneca. Narizinho, que não admitia que se matasse nem formiga, revoltou-se contra a barbaridade. — Então não quero! Prefiro que Emília fique muda toda a vida a sacrificar uma pobre ave que não tem culpa de coisa nenhuma. Nem bem acabou de falar, e os ajudantes do doutor, uns caranguejos muitoantipáticos, surgiram à porta, arrastando um pobre papagaio de bico amarrado. Bemque resistia ele, mas os caranguejos podiam mais e eram murros e mais murros.Furiosa com a estupidez, Narizinho avançou de sopapos e pontapés contra os brutos. — Não quero! Não admito que judiem dele! – berrou vermelhinha de cólera,desamarrando o bico do papagaio e jogando as cordas no nariz dos caranguejos.O doutor Caramujo desapontou, porque sem pílulas nem papagaios eraimpossível consertar a boneca. E deu ordem para que trouxessem o segundo paciente.Apareceu então o sapo num carrinho. Teve de vir sobre rodas por causa doestufamento da barriga; parece que as pedras haviam crescido de volume dentro.Como ainda estivesse vestido com a saia e a touca da Emília, Narizinho viu-seobrigada a tapar a boca para não rir-se em momento tão impróprio.O grande cirurgião abriu com a faca a barriga do sapo e tirou com a pinça decaranguejo a primeira pedra. Ao vê-la à luz do sol sua cara abriu-se num sorrisocaramujal. — Não é pedra, não! — exclamou contentíssimo. — É uma das minhasqueridas pílulas! Mas como teria ela ido parar na barriga deste sapo?...Enfiou de novo a pinça e tirou nova pedra. Era outra pílula! E assim foi indoaté tirar lá de dentro noventa e nove pílulas.A alegria do doutor foi imensa. Como não soubesse curar sem aquelas pílulas,andava com medo de ser demitido de médico da corte. — Podemos agora curar a senhora Emília — declarou ele depois de costurar a barriga do sapo.Veio a boneca. O doutor escolheu uma pílula falante e pôs-lhe na boca. — Engula duma vez! — disse Narizinho, ensinando à Emília como se engole pílula. E não faça tanta careta que arrebenta o outro olho.
Emília engoliu a pílula, muito bem engolida, e começou a falar no mesmoinstante. A primeira coisa que disse foi: “Estou com um horrível gosto de sapo na boca!” E falou, falou, falou mais de uma hora sem parar. Falou tanto que Narizinho,atordoada, disse ao doutor que era melhor fazê-la vomitar aquela pílula e engolir outra mais fraca. — Não é preciso — explicou o grande médico. — Ela que fale até cansar.Depois de algumas horas de falação, sossega e fica como toda gente. Isto é “falarecolhida”, que tem de ser botada para fora.E assim foi. Emília falou três horas sem tomar fôlego. Por fim calou-se. — Ora graças! — exclamou a menina. — Podemos agora conversar comogente e saber quem foi o bandido que assaltou você na gruta. Conte o casodireitinho.Emília empertigou-se toda e começou a dizer na sua falinha fina de boneca de pano: — Pois foi aquela diaba da dona Carocha. A coroca apareceu na gruta dascascas... — Que cascas, Emília? Você parece que ainda não está regulando... — Cascas, sim — repetiu a boneca teimosamente. — Dessas cascas de bichos moles que você tanto admira e chama conchas. Acoroca apareceu e começou a procurar aquele boneco... — Que boneco, Emília? — O tal Polegada que furava bolos e você escondeu numa casca bem lá nofundo. Começou a procurar e foi sacudindo as cascas uma por uma para ver qualtinha boneco dentro. E tanto procurou que achou. E agarrou na casca e foi saindocom ela debaixo do cobertor... — Da mantilha, Emília! — Do COBERTOR. — Mantilha, boba! — COBERTOR. Foi saindo com ela debaixo do COBERTOR e eu vi e pulei para cima dela. Mas a coroca me unhou a cara e me bateu com a casca na cabeça,com tanta força que dormi. Só acordei quando o doutor Cara de Coruja... — Doutor Caramujo, Emília! — Doutor CARA DE CORUJA. Só acordei quando o doutor CARA DECORUJÍSSIMA me pregou um liscabão. — Beliscão — emendou Narizinho pela última vez, enfiando a boneca no bolso. Viu que a fala da Emília ainda não estava bem ajustada, coisa que só o tempo poderia conseguir. Viu também que era de gênio teimoso e asneirenta por natureza, pensando a respeito de tudo de um modo especial todo seu. — Melhor que seja assim, — filosofou Narizinho. — As idéias de vovó e tia Nastácia a respeito de tudo são tão sabidas que a gente já as adivinha antes que elasabram a boca. As idéias de Emília hão de ser sempre novidades.E voltou para o palácio, onde a corte estava reunida para outra festa que o príncipe havia organizado. Mas assim que entrou na sala de baile, rompeu umgrande estrondo lá fora — o estrondo duma voz que dizia:
— Narizinho, vovó está chamando... Tamanho susto causou aquele trovãoentre os personagens do reino marinho, que todos se sumiram, como por encanto.Sobreveio então uma ventania muito forte, que envolveu a menina e a boneca,arrastando-as do fundo do oceano para a beira do ribeirãozinho do pomar. Estavamno sítio de dona Benta outra vez. Narizinho correu para casa. Assim que a viu entrar,dona Benta foi dizendo: — Uma grande novidade, Lúcia. Você vai ter agora um bom companheiroaqui no sítio para brincar. Adivinhe quem é?A menina lembrou-se logo do Major Agarra, que prometera vir morar comela. — Já sei vovó! É o Major Agarra-e-não-larga-mais. Ele bem me falou quevinha.Dona Benta fez cara de espanto. — Você está sonhando, menina. Não se trata de major nenhum. — Se não é o sapo, então é o papagaio! — continuou Narizinho, recordando-se de que também o papagaio prometera vir visitá-la. — Qual sapo, nem papagaio, nem elefante, nem jacaré. Quem vem passar unstempos conosco é o Pedrinho, filho da minha filha Antonica.Lúcia deu três pinotes de alegria. — E quando chega o meu primo? — indagou. — Deve chegar amanhã de manhã. Apronte-se. Arrume o quarto de hóspedese endireite essa boneca. Onde se viu uma menina do seu tamanho andar com uma boneca em fraldas de camisa e de um olho só? — Culpa dela, dona Benta! Narizinho tirou minha saia para vestir o sapãorajado — disse Emília falando pela primeira vez depois que chegara ao sítio.Tamanho susto levou dona Benta, que por um triz não caiu de sua cadeirinhade pernas serradas. De olhos arregaladíssimos, gritou para a cozinha: — Corra, Nastácia! Venha ver este fenômeno...A negra apareceu na sala, enxugando as mãos no avental. — Que é, sinhá? — perguntou. — A boneca de Narizinho está falando!... A boa negra deu uma risadagostosa, com a beiçaria inteira. — Impossível, sinhá! Isso é coisa que nunca se viu. Narizinho está mangandocom mecê. — Mangando o seu nariz! — gritou Emília furiosa. — Falo, sim, e hei defalar. Eu não falava porque era muda, mas o doutor Cara de Coruja me deu uma bolinha de barriga de sapo e eu engoli e fiquei falando e hei de falar a vida inteira,sabe?A negra abriu a maior boca do mundo. — E fala mesmo, sinhá!... — exclamou no auge do assombro. — Fala que nem uma gente! Credo! O mundo está perdido...E encostou-se à parede para não cair.
Monteiro Lobato
Reinações de Narizinho - Uma vez...
Uma vez, depois de dar comida aos peixinhos, Lúcia sentiu os olhos pesadosde sono. Deitou-se na grama com a boneca no braço e ficou seguindo as nuvens que passeavam pelo céu, formando ora castelos, ora camelos. E já ia dormindo,embalada pelo mexerico das águas, quando sentiu cócegas no rosto. Arregalou osolhos: um peixinho vestido de gente estava de pé na ponta do seu nariz.Vestido de gente, sim! Trazia casaco vermelho, cartolinha na cabeça eguarda-chuva na mão — a maior das galantezas! O peixinho olhava para o nariz de Narizinho com rugas na testa, como quem não está entendendo nada do que vê.A menina reteve o fôlego de medo de o assustar, assim ficando até que sentiucócegas na testa. Espiou com o rabo dos olhos. Era um besouro que pousara ali. Masum besouro também vestido de gente, trajando sobrecasaca preta, óculos e bengala.Lúcia imobilizou-se ainda mais, tão interessada estava achando aquilo.Ao ver o peixinho, o besouro tirou o chapéu, respeitosamente. — Muito boas tardes, senhor príncipe! — disse ele. — Viva, mestre Cascudo! — foi a resposta. — Que novidade traz Vossa Alteza por aqui, príncipe? — É que lasquei duas escamas do filé e o doutor Caramujo me receitou aresdo campo. Vim tomar o remédio neste prado que é muito meu conhecido, masencontrei cá este morro que me parece estranho — e o príncipe bateu com a biqueirado guarda-chuva na ponta do nariz de Narizinho e disse: — Creio que é de mármore — observou.Os besouros são muito entendidos em questões de terra, pois vivem a cavar buracos. Mesmo assim aquele besourinho de sobrecasaca não foi capaz de adivinhar que qualidade de “terra” era aquela. Abaixou-se, ajeitou os óculos no bico,examinou o nariz de Narizinho e disse: — Muito mole para ser mármore. Parece antes requeijão.
— Muito moreno para ser requeijão. Parece antes rapadura — volveu o príncipe.O besouro provou a tal terra com a ponta da língua. — Muito salgada para ser rapadura. Parece antes...Mas não concluiu, porque o príncipe o havia largado para ir examinar assobrancelhas. — Serão barbatanas, mestre Cascudo? Venha ver. Por que não leva algumas para os seus meninos brincarem de chicote?O besouro gostou da idéia e veio colher as barbatanas. Cada fio que arrancavaera uma dorzinha aguda que a menina sentia — e bem vontade teve ela de o espantar dali com uma careta! Mas tudo suportou, curiosa de ver em que daria aquilo.Deixando o besouro às voltas com as barbatanas, o peixinho foi examinar asventas. — Que belas tocas para uma família de besouros! — exclamou. — Por que não se muda para aqui, mestre Cascudo? Sua esposa havia degostar desta repartição de cômodos.O besouro, com o feixe de barbatanas debaixo do braço, lá foi examinar astocas. Mediu a altura com a bengala. — Realmente, são ótimas — disse ele. — Só receio que more aqui dentroalguma fera peluda.E para certificar-se cutucou bem lá no fundo. — Hu! Hu! Sai fora, bicho imundo!... Não saiu fera nenhuma, mas como a bengala fizesse cócegas no nariz deLúcia, o que saiu foi um formidável espirro — Atchim!... e os dois bichinhos, pegados de surpresa, reviraram de pernas para o ar, caindo um grande tombo nochão. — Eu não disse? — exclamou o besouro, levantando-se e escovando com amanga a cartolinha suja de terra. — É, sim, ninho de fera, e de fera espirradeira!Vou-me embora. Não quero negócios com essa gente. Até logo, príncipe! Façovotos para que sare e seja muito feliz.E lá se foi, zumbindo que nem um avião. O peixinho, porém, que era muitovalente, permaneceu firme, cada vez mais intrigado com a tal montanha queespirrava. Por fim a menina teve dó dele e resolveu esclarecer todo o mistério.Sentou-se de súbito e disse: — Não sou montanha nenhuma, peixinho. Sou Lúcia, a menina que todos osdias vem dar comida a vocês. Não me reconhece? — Era impossível reconhecê-la, menina. Vista de dentro d’água parece muitodiferente... — Posso parecer, mas garanto que sou a mesma. Esta senhora aqui é a minhaamiga Emília.O peixinho saudou respeitosamente a boneca, e em seguida apresentou-secomo o príncipe Escamado, rei do reino das Águas Claras. — Príncipe e rei ao mesmo tempo! — exclamou a menina batendo palmas. — Que bom, que bom, que bom! Sempre tive vontade de conhecer um príncipe-rei.
Conversaram longo tempo, e por fim o príncipe convidou-a para uma visitaao seu reino. Narizinho ficou no maior dos assanhamentos. — Pois vamos e já — gritou — antes que tia Nastácia me chame.E lá se foram os dois de braços dados, como velhos amigos. A boneca seguiaatrás sem dizer palavra. — Parece que dona Emília está emburrada — observou o príncipe. — Não é burro, não, príncipe. A pobre é muda de nascença. Ando à procurade um bom doutor que a cure. — Há um excelente na corte, o célebre doutor Caramujo. Emprega umas pílulas que curam todas as doenças, menos a gosma dele. Tenho a certeza de que odoutor Caramujo põe a senhora Emília a falar pelos cotovelos.E ainda estavam discutindo os milagres das famosas pílulas quando chegarama certa gruta que Narizinho jamais havia visto naquele ponto. Que coisa estranha! A paisagem estava outra. — É aqui a entrada do meu reino — disse o príncipe. Narizinho espiou, commedo de entrar. — Muito escura, príncipe. Emília é uma grande medrosa.A resposta do peixinho foi tirar do bolso um vaga-lume de cabo de arame,que lhe servia de lanterna viva. A gruta clareou até longe e a “boneca” perdeu omedo. Entraram.Pelo caminho foram saudados com grandes marcas de respeito, por váriascorujas e numerosíssimos morcegos. Minutos depois chegavam ao portão do reino.A menina abriu a boca, admirada. — Quem construiu este maravilhoso portão de coral, príncipe?É tão bonito que até parece um sonho. — Foram os Pólipos, os pedreiros mais trabalhadores e incansáveis do mar.Também meu palácio foi construído por eles, todo de coral rosa e branco. Narizinho ainda estava de boca aberta quando o príncipe notou que o portãonão fora fechado naquele dia. — É a segunda vez que isto acontece — observou ele com cara feia. — Aposto que o guarda está dormindo.Entrando, verificou que era assim. O guarda dormia um sono roncado. Esseguarda não passava dum sapão muito feio, que tinha o posto de major no exércitomarinho.Major Agarra-e-não-larga-mais.Recebia como ordenado cem moscas por dia para que ali ficasse, de lança em punho, capacete na cabeça e a espada à cinta, sapeando a entrada do palácio. OMajor, porém, tinha o vício de dormir fora de horas, e pela segunda vez foraapanhado em falta.O príncipe ajeitou-se para acordá-lo com um pontapé na barriga, mas amenina interveio. — Espere príncipe! Eu tenho uma idéia muito boa. Vamos vestir este sapo demulher, para ver a cara dele quando acordar.E sem esperar resposta, foi tirando a saia da Emília e vestindo-a, muitodevagarinho, no dorminhoco. Pôs-lhe também a touca da boneca em lugar do
capacete, e o guarda-chuva do príncipe em lugar de lança. Depois o deixou assimtransformado numa perfeita velha coroca, disse ao príncipe: — Pode chutar agora.O príncipe, zás!... pregou-lhe um valente pontapé na barriga. — Hum!...— gemeu o sapo, abrindo os olhos, ainda cego de sono.O príncipe engrossou a voz e ralhou: — Bela coisa. Major! Dormindo como um porco e ainda por cima vestido develha coroca... Que significa isto?O sapo, sem compreender coisa nenhuma, mirou-se apatetadamente numespelho que havia por ali. E botou a culpa no pobre espelho. — É mentira dele, príncipe! Não acredite. Nunca fui assim... — Você de fato nunca foi assim — explicou Narizinho. — Mas, comodormiu escandalosamente durante o serviço, a fada do sono o virou em velha coroca.Bem feito... — E por castigo — ajuntou o príncipe — está condenado a engolir cem pedrinhas redondas, em vez das cem moscas do nosso trato.O triste sapo derrubou um grande beiço, indo, muito jururu, encorujar-se aum canto.
Monteiro Lobato
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
A lenda de Catira
Foi há muitos anos atrás…
No tempo em que a mamaurama se cobria de flores e os japins fabricavam seus ninhos feitos de fibras e cipós, finos, nas grimpas da maçaranduba gigantesca…
Êle era lindo, o mais lindo de todos os jovens de sua tribo.
Era forte e valente. Ninguém com mais destreza manejava a zarabatana temível, cuja flexa certeira cortava em meio o vôo da aracuã.
Somente êle sabia o segredo que lhe ensinava brandir o tacape pesado e duríssimo, desferir a flexa sibilante e traiçoeira.. .
Nunca o inimigo branco pisou a terra de seu pai que não levasse no corpo uma picada da sua uamiri. Nunca foi vencido; todos o temiam.
E o pai já velhinho sentia-se orgulhoso do filho que devia suceder-lhe na chefia da tribo, depois que o cunaua-raú gritasse pela quarta vez no tronco da tanari.
Uma tarde, o jovem bororó aprontou a sua veloz e pequena igara e pôs-se a "descer o riacho que serpeava um pouco distante de sua oca.
A tarde era bela, e o astro príncipe do universo, numa grande e triste apoteose, ia aos poucos inundando a terra de luz e de mistério.
Uma brisa soprava ciciante e fresca pela tarde a dentro e a igara pequenina, célere, ia cortando as águas ondulantes do riacho.. .
Era muito tarde quando êle voltou.
Já o lírio da noite havia fechado as suas pétalas rosadas e macias.
Sentou-se no tronco pesado de abiurana, à frente da cabana, e ficou ali durante quase toda a noite, silencioso, taciturno, olhando as estrelas piscolejar no azul claro, lavado. ..
A mãe bororó, vendo a tristeza imensa que invadia a alma perguntou-lhe:
— Filho, que tens? andas doente? O jovem bororó estremeceu.
Ergueu o olhar sombrio para a mãe e, quase de joelhos, meigo como uma criança, assim lhe falou:
— A igara, mãe, levada pela correnteza ia descendo… descendo… quando de repente ouvi, longinquamente, uma voz maviosa que cantava acompanhada por uma música dolente, tocada talvez por algum instrumento misterioso…
E eu não pude resistir… mãe… toquei a igara para lá e a vi, mãe, sentada numa grande pedra, os cabelos negros e compridos esvoaçando ao vento, e os olhos azuis como a flor da mancava a cantar, brincando com as plumas macias da enduape, uma mulher, mãe… bonita… como eu nunca tinha visto assim… Ela abriu os braços para mim, mãe, e me chamou, mas…, quando eu já estava bem próximo, as águas começaram a ferver… parei um pouco, ela olhou para mim sorriu e atirou-se na água e desapareceu …
A mãe bororó, que ouvia em silêncio a narração do filho, ergueu os olhos úmidos de pranto e falou-lhe:
— Filho, mulher bela que viste lá é Catira, ela é da tua raça, corre nas suas veias o sangue dos bororós. Ela era a mulher mais linda da tribo de seu avô. Mas um dia entregou-se a um homem branco, e o pajé achou que ela devia ser lançada ao rio para pagar a sua grande traição. As águas do riacho, porém, não quiseram receber seu corpo criminoso; jogaram-na sobre aquela pedra, onde ficou penando até hoje. Ela canta assim para atrair os bororós incautos ao lugar onde se encontra; a primeira vez foge como fugiu de ti, mas na segunda, fica ali sentada até ver as águas revoltadas, que guardam a sua caverna, tragar o corpo daquele que se atreveu a chegar até ali. É assim, meu filho, que ela se vinga dos bororós… Não volte nunca lá, meu filho nem tão pouco olhe para os olhos dela para que não sejas dominado pelo seu brilho traiçoeiro…
A mãe bororó calou-se, beijou a testa tostada do filho e retirou-se.
Era tarde já, atrás da serrania negrescente, com suas franjas de ouro, Sepi desaparecia.
Sentado no tronco pesado de abiurana, a fronte pensativa voltada para o chão, assim Sepi, o jovem bororó, amanheceu…
Mas nesse mesmo dia, ao anoitecer aprontou a sua veloz e pequena igara — esquecido da palavra de sua mãe — rasgou as águas ondulantes — o apecuitá feito de pau vermelho — e começou a descer o riacho vagarosamente.
E foi descendo… descendo… até sumir-se na curva.
Hoje os velhos bororós dizem aos filhos a lenda de Catira a índia amaldiçoada.
— Foi Sepi o último que ali ficou…
Depois as águas se tornaram tranquilas.. . a pedra desapareceu … e nunca mais ninguém ouviu nem ninguém viu, sentada ali aquela mulher de cabelos negros e compridos esvoaçando ao vento, e de olhos azuis como a flor da mancava, a cantar… a cantar…
E os velhos bororós terminam:
E dizem que ela morreu de remorso…
Lenda dos índios bororós. Fonte: Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso. Seleção de Regina Lacerda. Desenhos de J. Lanzelotti. Ed. Literat. 1962
As três velhas
Uma viúva tinha uma filha muito bonita e religiosa que agradava a toda a gente. A viúva queria casar a filha com homem rico e para isso fazia o possível. Na esquina da rua onde moravam as duas havia uma casa de comércio afreguesada, cujo dono era solteiro e de posses. A viúva fazia as compras nessa casa e vivia estudando um meio de conseguir fazer com que o homem conhecesse e simpatizasse com sua filha.
Um dia ouviu-o dizer que só se casaria com uma moça trabalhadeira e que fiasse muito mais do que todas na cidade. A viúva comprou logo uma porção de linho, dizendo que era para a filha fiar, e que esta era a melhor fiandeira do mundo.
A moça ia todas as madrugadas à missa das almas e encontrava lá três velhas muito devotas que a cumprimentavam.
A viúva chegando a casa entregou o linho à moça, dizendo que teria de fiá-lo completamente até a manhã seguinte. A moça se valeu dos olhos, chorando, e foi sentar-se no batente da cozinha, rezando, desconsolada da vida. Estava nesse ponto quando ouviu uma voz perguntar.
— Chorando por quê, minha filha?
Levantou os olhos e viu uma das três velhinhas da missa das almas.
— E não hei de chorar? Minha mãe quer que eu fie todo esse linho e o entregue dobado amanhã de manhã...
— Não se agonie, minha filha. Se você me convidar para seu casamento e prometer que três vezes me chamará tia, em voz alta, darei uma ajuda.
A moça prometeu. A velha despediu-se e foi embora, deixando o monte de linho fiado e pronto. A viúva, quando achou a tarefa pronta, só faltou morrer de satisfeita. Correu até a loja do negociante, mostrando as habilidades da filha e pediu uma porção ainda maior de linho. O negociante espantado pelo trabalho da moça não quis receber dinheiro pela compra.
Vendo que as cousas se encaminhavam como ela desejava, a viúva voltou a dar o linho pra a filha fiar até a manhã seguinte. Novamente a moça se agoniou muito e foi chorar na cozinha. Novamente apareceu uma velha, a segunda das três, que lhe propôs ajudá-la se ela a convidasse para o seu casamento e a chamasse tia por três vezes. A moça aceitou e o linho ficou pronto num minuto.
A viúva voltou correndo à loja do homem rico, mostrando o linho fiado e gabando a filha. O negociante estava simpatizando muito com a moça que fiava tão depressa e tamanhas qualidades. A viúva voltou com uma carga de linho enorme, entregando aquela penitência à sua filha.
Aconteceu como nas outras vezes. A terceira velha, mediante convite para o casamento e chamá-la tia três vezes, fiou o linho num rápido.
Quando o negociante viu o linho fiado, pediu para conhecer a moça, conversou com ela e acabou falando a casamento. Como era de agradável presença, a moça aceitou e marcou-se o casamento. O homem mandou preparar sua casa com todos os arranjos decentes e encheu uma mesa de fusos, rocas, linhos, tudo para que a mulher se ocupasse durante o santo dia em fiar.
Depois do casamento, na hora do jantar, estavam todos reunidos e muito alegres, quando bateram palmas e entrou uma das três velhas da missa das almas. A noiva correu logo dizendo:
— Que alegria, minha tia! Entre, minha tia, sente-se aqui perto de mim, minha tia.
Assim que a velha sentou na cadeira, chegou a outra, recebida com a mesma satisfação:
— Entre minha tia! Sente-se aqui, minha tia! Vai jantar comigo, minha tia!
A terceira velha chegou também e a noiva abraçou-a logo:
— Dê cá um abraço, minha tia! Vamos sentar, minha tia! Quero apresentá-la ao meu marido, minha tia!
Foram para o jantar e o marido e convidados não tiravam os olhos de cima das três velhas que eram feias como o pecado mortal.
Depois do jantar, o marido não se conteve e perguntou por que a primeira era tão corcovada, a segunda com a boca torta e a terceira com os dedos finos e compridos como patas de aranhas. As velhinhas responderam:
— Eu fiquei corcunda de tanto fiar linho, curvada para rodar o fuso!
— Eu fiquei com a boca torta de tanto riçar os fios de linho quando fiava!
— Eu fiquei com os dedos assim de tanto puxar e remexer o linho quando fiava!
Ouvindo isso o marido mandou buscar os fusos, rocas, meadas, linhos, e tudo que servisse para fiar, e fez com que queimassem tudo, jurando a Deus que jamais sua mulher havia de ficar feia como as três tias fiandeiras por causa do encargo de fiar.
Depois, as três velhas desapareceram para sempre. O casal viveu muito feliz.
Fonte: Luís da Câmara Cascudo. Contos tradicionais do Brasil.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Começaremos as 1001 noites
As histórias que compõe as Mil e uma noites tem várias origens, incluindo o folclore indiano, persa e árabe. Não existe uma versão definida da obra, uma vez que os antigos manuscritos árabes diferem no número e no conjunto de contos. O que é invariável nas distintas versões é que os contos estão organizados como uma série de histórias em cadeia narrados por Xerazade, esposa do rei Xariar. Este rei, louco por haver sido traído por sua primeira esposa, desposa uma noiva diferente todas as noites, mandando-as matar na manhã seguinte. Xerazade consegue escapar a esse destino contando histórias maravilhosas sobre diversos temas que captam a curiosidade do rei. Ao amanhecer, Xerazade interrompe cada conto para continuá-lo na noite seguinte, o que a mantém viva ao longo de várias noites - as mil e uma do título - ao fim das quais o rei já se arrependeu de seu comportamento e desistiu de executá-la. Não percam!
A contagem dos pães da "justiça" maometana
Dois homens que viajavam juntos sentaram-se à beira da estrada, para comer. Um tinha cinco pães, e o outro três. Quando colocaram diante de si a comida, passou por ali um homem e os cumprimentou. Eles o convidaram:
— Senta-te para comer conosco.
Ele se sentou e comeu com eles, consumindo-se durante a refeição os oito pães. O homem então se levantou e lhes deu oito moedas de prata, dizendo:
— Recebam este pagamento pela comida que me deram.
E continuou seu caminho.
Os dois companheiros discutiram sobre o modo de dividir entre si as moedas. O dono dos cinco pães dizia:
— Para mim são cinco moedas, e para ti três, pois isto corresponde ao número de pães que cada um de nós tinha.
— Só me conformarei com a divisão das moedas em partes iguais, pois ele recompensou a nossa hospitalidade, que tem o mesmo valor.
Não conseguiram chegar a um acordo. Por isso levaram sua pendência ao Emir Ali ben Ali-Talib, a quem expuseram o ocorrido. O Emir disse então ao dono dos três pães:
— Teu companheiro está sendo muito condescendente, oferecendo-te três moedas, pois o pão dele era mais abundante que o teu. É melhor conformar-te com as três moedas.
— Só me conformarei com o que me cabe por direito.
— Mas de acordo com o direito só te cabe uma moeda, e as outras sete ao teu companheiro.
— Ele me ofereceu três moedas e não me conformei, e agora me afirmas que o direito me confere uma só moeda! Explica-me por que só tenho direito a isso, e só então o aceitarei.
Ali-Talib então explicou:
— Eram três pessoas, e não é possível saber quem comeu mais e quem comeu menos. Portanto, temos de supor que todos comeram quantidades iguais. Os pães comidos eram oito, que perfazem vinte e quatro terços. Cada um, portanto, comeu oito terços. Os teus três pães representavam nove terços, e deles comeste oito. O teu companheiro comeu oito terços e tinha quinze. Portanto, dos oito terços que o convidado comeu, sete eram do teu amigo, e apenas um era teu. Daí resulta que te cabe apenas uma moeda, e as outras sete ao teu amigo.
— Agora eu concordo. Nada como o que é justo!
Nada como a labia do emir maometano!
Parábola Árabe. Fonte: Ben Al-Sayi, in R. Menéndez Pidal, "Antología de cuentos" - Labor, Barcelona, 1953.
— Senta-te para comer conosco.
Ele se sentou e comeu com eles, consumindo-se durante a refeição os oito pães. O homem então se levantou e lhes deu oito moedas de prata, dizendo:
— Recebam este pagamento pela comida que me deram.
E continuou seu caminho.
Os dois companheiros discutiram sobre o modo de dividir entre si as moedas. O dono dos cinco pães dizia:
— Para mim são cinco moedas, e para ti três, pois isto corresponde ao número de pães que cada um de nós tinha.
— Só me conformarei com a divisão das moedas em partes iguais, pois ele recompensou a nossa hospitalidade, que tem o mesmo valor.
Não conseguiram chegar a um acordo. Por isso levaram sua pendência ao Emir Ali ben Ali-Talib, a quem expuseram o ocorrido. O Emir disse então ao dono dos três pães:
— Teu companheiro está sendo muito condescendente, oferecendo-te três moedas, pois o pão dele era mais abundante que o teu. É melhor conformar-te com as três moedas.
— Só me conformarei com o que me cabe por direito.
— Mas de acordo com o direito só te cabe uma moeda, e as outras sete ao teu companheiro.
— Ele me ofereceu três moedas e não me conformei, e agora me afirmas que o direito me confere uma só moeda! Explica-me por que só tenho direito a isso, e só então o aceitarei.
Ali-Talib então explicou:
— Eram três pessoas, e não é possível saber quem comeu mais e quem comeu menos. Portanto, temos de supor que todos comeram quantidades iguais. Os pães comidos eram oito, que perfazem vinte e quatro terços. Cada um, portanto, comeu oito terços. Os teus três pães representavam nove terços, e deles comeste oito. O teu companheiro comeu oito terços e tinha quinze. Portanto, dos oito terços que o convidado comeu, sete eram do teu amigo, e apenas um era teu. Daí resulta que te cabe apenas uma moeda, e as outras sete ao teu amigo.
— Agora eu concordo. Nada como o que é justo!
Nada como a labia do emir maometano!
Parábola Árabe. Fonte: Ben Al-Sayi, in R. Menéndez Pidal, "Antología de cuentos" - Labor, Barcelona, 1953.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Nasrudin e a utilidade do sol e da lua
Nasrudin entrou na casa de chá proclamando:
- A lua é mais útil que o sol.
- Por que, mullá?
- Precisamos de mais luz durante a noite que durante o dia.
- A lua é mais útil que o sol.
- Por que, mullá?
- Precisamos de mais luz durante a noite que durante o dia.
Santo Antônio Casamenteiro
Seria difícil averiguar o motivo porque o povo brasileiro, assim como o português, inclui nas virtudes do santo que se festeja a 13 de junho, a de milagroso casamenteiro. Haverá quem diga que descobrir um noivo arisco é atribuição do advogado das cousas perdidas. E Santo Antônio é, também, como se sabe o advogado das coisas inincontráveis.
Em Minas, corre de boca em boca uma lenda que, certamente, tem contribuído muito para que se alastre entre os montanheses a crença nos méritos de Santo Antônio de Lisboa, ou de Pádua, como providencial casamenteiro.
Conta-se que uma jovem muito linda, mas cansada de esperar por um noivo que não chegava, já desesperançosa de encontrar marido, se apegou com Santo Antônio. Foi ao santeiro da cidade, adquiriu uma imagem daquele pio varão que no século chamou-se Fernando de Bulhão, fê-la benzer, colocou-a no oratório e ali lhe levava, todos os dias, o seu fervoroso responso, as flores que colhia no jardim e o vintenzinho de promessa.
Mas, passaram-se semanas, meses, anos… e nada.
O noivo não aparecia, nem se falava na redondeza que algum mancebo ou mesmo, à falta de outro, algum velhote ricaço se tivesse por ela inclinado. Certa vez, depois de consultar o espelho e ter descoberto prenúncios de pés de galinha, se pôs a lamentar da ingratidão do santo, chegando mesmo a ser repreendida pela progenitora. E, desapontada pelo poder miraculoso do taumaturgo, toma a imagem e, no auge do desespero, atira-a pela janela a fora.
Passava na rua, naquele momento, um jovem cavaleiro que a recebe, em cheio, sobre a cabeça. Apanha-a, intacta e sobe a escada do sobrado, de uma de cujas janelas partira a imagem. Vem recebê-lo, por notável coincidência, a formosa e geniosa donzela. Apaixona-se por ela o cavaleiro e, tempos após, acabam casando, naturalmente por milagre do santo.
Depois dessa estória, o santeiro da cidade não mais teve mãos a medir…
Conto Popular do Brasil.Fonte: Lindolfo Gomes. Contos populares. Juiz de Fora, Dias Cardoso e Cia, 1918.
Em Minas, corre de boca em boca uma lenda que, certamente, tem contribuído muito para que se alastre entre os montanheses a crença nos méritos de Santo Antônio de Lisboa, ou de Pádua, como providencial casamenteiro.
Conta-se que uma jovem muito linda, mas cansada de esperar por um noivo que não chegava, já desesperançosa de encontrar marido, se apegou com Santo Antônio. Foi ao santeiro da cidade, adquiriu uma imagem daquele pio varão que no século chamou-se Fernando de Bulhão, fê-la benzer, colocou-a no oratório e ali lhe levava, todos os dias, o seu fervoroso responso, as flores que colhia no jardim e o vintenzinho de promessa.
Mas, passaram-se semanas, meses, anos… e nada.
O noivo não aparecia, nem se falava na redondeza que algum mancebo ou mesmo, à falta de outro, algum velhote ricaço se tivesse por ela inclinado. Certa vez, depois de consultar o espelho e ter descoberto prenúncios de pés de galinha, se pôs a lamentar da ingratidão do santo, chegando mesmo a ser repreendida pela progenitora. E, desapontada pelo poder miraculoso do taumaturgo, toma a imagem e, no auge do desespero, atira-a pela janela a fora.
Passava na rua, naquele momento, um jovem cavaleiro que a recebe, em cheio, sobre a cabeça. Apanha-a, intacta e sobe a escada do sobrado, de uma de cujas janelas partira a imagem. Vem recebê-lo, por notável coincidência, a formosa e geniosa donzela. Apaixona-se por ela o cavaleiro e, tempos após, acabam casando, naturalmente por milagre do santo.
Depois dessa estória, o santeiro da cidade não mais teve mãos a medir…
Conto Popular do Brasil.Fonte: Lindolfo Gomes. Contos populares. Juiz de Fora, Dias Cardoso e Cia, 1918.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
O Cavaleiro Apressado
Era uma vez um homem que estava dormindo. Enquanto dormia engoliu um animal venenoso que lhe ficou entalado na garganta.
Levantou-se numa espécie de delírio e começou a tossir e a se sacudir, tentando livrar-se de um mal que absolutamente não compreendia.
Um cavaleiro que passava por ali naquele momento viu, num relance, tudo o que havia acontecido. Imediatamente ergueu o chicote e começou a açoitar o homem, golpeando-o sem piedade, até que ficou negro e azulado.
0 homem, meio enlouquecido, tentou gritar-lhe que parasse, mas não conseguia fazer com que as palavras saíssem. Enquanto corria, ou se espojava no chão, ou se revirava, sempre recebia uma chuva de golpes implacáveis.
0 cavaleiro não dizia uma palavra.
Finalmente, como resultado de uma terrível náusea, o animal venenoso foi vomitado pelo ressentido estômago do homem aflito. 0 animal caiu ao chão e estrebuchou. 0 cavaleiro, sem uma palavra, esporeou o cavalo e partiu.
Somente então o homem percebeu que aquilo que lhe parecera um assalto injustificado, havia sido, na verdade, a única forma de se livrar do animal antes que o veneno fosse injetado em seu sangue.
Este tipo de coisa não acontece todos os dias, nem a todas as pessoas, nem todo o tempo. Mas, às vezes, há na vida de todas as pessoas ocasiões em que se pode estar recebendo ajuda embora se acredite que se esteja recebendo um malefício, e vice-versa. No ensinamento superior, o mestre não se exime de um dever tão penoso como o do cavaleiro em nossa parábola; como tampouco se pode esperar que ele seja invariavelmente duro.
Extraído de 'O Sufismo no Ocidente'
Edições Dervish 1988
Levantou-se numa espécie de delírio e começou a tossir e a se sacudir, tentando livrar-se de um mal que absolutamente não compreendia.
Um cavaleiro que passava por ali naquele momento viu, num relance, tudo o que havia acontecido. Imediatamente ergueu o chicote e começou a açoitar o homem, golpeando-o sem piedade, até que ficou negro e azulado.
0 homem, meio enlouquecido, tentou gritar-lhe que parasse, mas não conseguia fazer com que as palavras saíssem. Enquanto corria, ou se espojava no chão, ou se revirava, sempre recebia uma chuva de golpes implacáveis.
0 cavaleiro não dizia uma palavra.
Finalmente, como resultado de uma terrível náusea, o animal venenoso foi vomitado pelo ressentido estômago do homem aflito. 0 animal caiu ao chão e estrebuchou. 0 cavaleiro, sem uma palavra, esporeou o cavalo e partiu.
Somente então o homem percebeu que aquilo que lhe parecera um assalto injustificado, havia sido, na verdade, a única forma de se livrar do animal antes que o veneno fosse injetado em seu sangue.
Este tipo de coisa não acontece todos os dias, nem a todas as pessoas, nem todo o tempo. Mas, às vezes, há na vida de todas as pessoas ocasiões em que se pode estar recebendo ajuda embora se acredite que se esteja recebendo um malefício, e vice-versa. No ensinamento superior, o mestre não se exime de um dever tão penoso como o do cavaleiro em nossa parábola; como tampouco se pode esperar que ele seja invariavelmente duro.
Extraído de 'O Sufismo no Ocidente'
Edições Dervish 1988
domingo, 15 de maio de 2011
sábado, 14 de maio de 2011
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Entrevista com Gislayne Matos Avelar
A pesquisadora e especialista em contação de histórias Gislayne Avelar Matos, mineira, esteve no Recife a convite da Massangana Multimídia Produções, ligada à Diretoria de Cultura/Fundaj, para participar de dois encontros do curso de Dramaturgia – Na Fronteira das Linguagens, realizado no mês de setembro. Ela atua há trinta anos no ofício da contação, que aprendeu com o avô, e é autora de dois livros que são referências no assunto no Brasil: A Palavra do Contador de Histórias e O Ofício do Contador de História. Esse último, em co-autoria com Inno Sorsy. Há catorze anos, desenvolve os projetos Convivendo com a Arte, para formar novos contadores de histórias, e Noites de Contos, para divulgar os contos de tradição oral. Com a fala mansa e o sorriso largo, típicos do bom estilo mineiro, Gislayne recebeu a repórter Vanessa Menescal uma hora antes de começar o encontro de contação de histórias e falou sobre memórias afetivas e o encantamento das palavras.
Repórter - O que é ser uma contadora de histórias?
Gislayne - Eu sou neta de um grande contador de histórias e eu me considero a herdeira da palavra contadora do meu avô, porque de todos os netos fui eu que continuei essa tradição. Ele contava, eu ouvia e eu comecei a inventar histórias também. Mas eu fui me profissionalizar nessa área muito mais tarde. Comecei a trabalhar com histórias no contexto terapêutico, fazendo terapia familiar sistêmica. Passei a utilizar as histórias das famílias que vinham e contavam a sua trajetória. Depois fiz uma especialização em arte-terapia e arte-educação e comecei a utilizar os contos de forma mais focada no processo terapêutico. Em seguida fui trabalhar a arte de contar histórias. Tudo isso foi mais ou menos simultâneo.
Repórter - A contação de histórias é uma forma de arte?
Gislayne - Algumas pessoas dizem que isso não é uma arte. E eu também acho que a contação de histórias não é uma arte, mas um ofício. Um ofício que, como todos os outros, tem seus instrumentos, seus métodos, suas técnicas. Há pessoas que podem desempenhá-lo com maior ou menor facilidade, mas todo mundo pode desempenhar esse ofício.
Repórter - O ofício de contador de histórias tem relação com a arte de representar, ou qualquer pessoa pode exercê-lo?
Gislayne - Todo mundo conta história. A gente conta história todo o tempo. O texto do contador de história precisa encantar o seu ouvinte. É preciso que o ouvinte saia da realidade do seu dia-a-dia e se transporte para um outro espaço interno, seu, um espaço onde no seu imaginário ele vai construir os cenários, as situações que o contador sugere.
Repórter - A contação reúne realidade e ficção?
Gislayne - Eu vou contar um causo, uma história que aconteceu com Dona Maria, que estava ali na esquina. Ele faz parte da história da comunidade, todo mundo o conhece. O Nordeste é cheio de causos. Minas Gerais é cheio de causos. Em todos os lugares onde as pessoas, até um tempo atrás, tinham tempo de colocar uma cadeira na calçada e falar das coisas da vida, do mundo e dos vizinhos, gerou-se uma riqueza muito grande nessa nomenclatura de causos, que são anedóticos, não têm um conteúdo do maravilhoso, do transcendente, do ficcional. Eles falam de realidades. A história que o contador vai contar vai colocar também o maravilhoso, vai trabalhar o imaginário, vai criar situações que são diferentes do que ocorre na realidade concreta.
Repórter - E como é a sua contação?
Gislayne - A primeira coisa que quero dizer é que as histórias não são para as crianças, embora as crianças adorem histórias. Inicialmente, as histórias não tinham intenção de distrair crianças, elas eram formas metafóricas de dizer das coisas da vida e de como lidar com elas. Eram dirigidas às pessoas adultas, e nesses serões de contos todas as gerações estavam juntas. Isso acontecia num modelo de sociedade anterior à modernidade, com todas as suas tecnologias, com novas formas de comunicação. As diversas gerações sempre estavam juntas em torno da palavra. O contador começava contando as histórias de que as crianças também gostavam, como as advinhas, travas línguas, pequenas anedotas. E à medida que as crianças iam dormindo, aí os contos iam mudando de contexto, começavam a ficar mais picantes, mais filosóficos. Mas, o serão de contação de história tinham por público as pessoas de todas as gerações. O conto fala da alma humana. Ele nos ensina a estar nesse mundo de uma forma melhor.
Repórter - Como é o curso de contação de história que você ministra?
Gislayne - Existem temas importantes que eu acho que a gente deve abordar na formação de um contador de história. O primeiro é o da palavra, da letra à voz. Eu trabalho com os contos de tradição oral, que não são assinados por autores, pertencem a toda a humanidade e fazem parte do inconsciente coletivo. Eu encontro um conto no Nordeste, que na realidade foi encontrado na Índia há muitos séculos antes de Cristo. E esse mesmo conto eu encontro no mundo árabe. Os contos têm essa capacidade de viajar na voz dos contadores de história. Antigamente, os contadores aprendiam a contar histórias com os outros contadores, escutando e memorizando a partir daquilo que escutavam e viam. O contador contemporâneo precisa pesquisar na escrita, porque esses contos foram recolhidos e por um bom tempo ficaram guardados, como coisas sem importância. A escrita é um museu de palavras. Porque a palavra, quando eu estou falando com você, ela é viva, não é só palavra, tem uma entonação, um ritmo. Eu olho nos seus olhos e vejo se você está gostando ou não. Se não, eu dou uma quebrada no discurso para o outro lado. Eu quero lhe encantar com a minha palavra. Na escrita não tem nada disso. Se você ler isso hoje ou daqui a um século, é a mesma coisa. Na oralidade não é assim. A oralidade é orgânica, viva, vai mudando o tempo inteiro.
Repórter - Uma história vira muitas histórias na voz do contador?
Gislayne - Eu te conto uma história hoje, amanhã eu posso te contar a mesma história e ela não será da mesma forma. Eu vou manter a estrutura, os personagens são os mesmos, mas dependendo do público, a história sairá completamente diferente. Uma coisa que acontece com os contadores que já estão no caminho a mais tempo, que têm uma certa familiaridade com os personagens, com as histórias, é que depois de muito tempo contando uma história, às vezes o personagem o surpreende, apresentando um lado que nunca tinha sido revelado.A contação de história é uma coisa viva, dinâmica. É tirar um conto do registro escrito e jogá-lo de volta na corrente da oralidade. Os códigos na linguagem escrita são uns, e na oralidade são outros. Aquilo que esteticamente é muito bonito na linguagem escrita, na oral não provoca nenhuma sensação. Porque são registros e abordagens diferentes. Quando eu escuto e quando eu leio, são coisas diferentes que vão ser mobilizadas em mim. Eu trabalho as diferenças dos códigos.
Repórter - O que é necessário para ser um bom contador de história?
Gislayne - A primeira coisa que um contador de história precisa saber é que um contador não decora a história. Um contador que decora a história não é um contador. Antigamente, os Aedos decoravam a Odisséia, a Ilíada, ditos num ritmo poético e com toda uma marcação, porque era uma transmissão sagrada, sempre a mesma coisa. O contador de história faz um outro trabalho. Nas sociedades em que a transmissão dos saberes é através da oralidade, existem vários tipos de contadores. O que transmitem os grandes contos, da criação e dos mitos, aquilo que funda aquela civilização. Esse contador vai ser absolutamente estrito, não vai inventar nada, vai repetir, como ele aprendeu, ouvindo.Existe o outro tipo de contador que vai brincar com a história. Cada um com sua especialização. Hoje, como somos de uma cultura escrita, nós temos o cronista, o jornalista, o articulista, o colunista, o escritor de literatura, o de poesia.
Repórter - Todos eles são contadores de história?
Gislayne - Todos eles trabalham com a palavra escrita. Antigamente, como a transmissão era através da oralidade, nós tínhamos também vários tipos de contadores, todos trabalhavam com a palavra. Um com a palavra mítica, sagrada, que não podia ser modificada. Outro era o contador que ia criar na cena da performance, e hoje é o que vemos nos nossos contadores. Esse é contador que tem direito a mentir. Socialmente a mentira é aceita, vinda desse contador. Quando ele fala além da medida, o público costuma dizer: “contador, contador...” - e ele se desculpa, dizendo que foi traído pela “língua fogosa”.
Repórter - Como se dá um espetáculo de contação de história?
Gislayne - Depende, há várias formas de contar, a mais intimista, a mais interativa, onde o contador vai implicar o seu público nos seus contos.Ou então ele vai contar uma história mais introspectiva, e vai ser num outro tom, vai trabalhar com outra pausa, será outra coisa a acontecer ali. A coisa mais importante na formação de um contador de história é ele fazer o reconhecimento de dois códigos, saber que não tem que decorar e como se apropriar do texto. É diferente do teatro, em que ele vai precisar decorar, porque vai contracenar com outros personagens, e se começa a inventar, o outro personagem não vai saber o que fazer. O contador não decora. Ele tem uma forma de se apropriar das histórias que vai contar. Eu costumo dizer aos meus alunos que eu sei de cor pelo menos uns duzentos e cinqüenta contos e quando eu estou com a língua meio fogosa eu falo que são sete vezes setecentos. Por que eu sei tantos contos? Porque eu não decoro contos. Eu não consigo decorar nem o telefone da minha casa. Imagina se eu ia conseguir decorar um conto! E olhe que eu faço uma contação que dura uma hora e meia numa mesma história. Então há outra forma de apropriação. Para se apropriar dessa forma é preciso que você conheça os códigos da oralidade, que são diferentes dos códigos da escrita. Pela escrita eu ia ler vírgula por vírgula, parágrafo por parágrafo. Não é assim na oralidade.
Repórter - Quais são os outros temas que você trabalha com seus alunos?
Gislayne - São os gestos do contador de história, extremamente importantes. Eles têm que estar absolutamente inseridos naquilo que ele está dizendo, porque se ele fala uma coisa e o corpo diz outra, o ouvinte fica perdido, a viagem dele fica uma viagem meia-boca. O objetivo do contador é levar seu ouvinte a uma viagem, ao mar do imaginário. Outro tema importante que passo aos meus alunos é referente à fala do contador. Nós temos que juntar. É como se você colocasse o foco em determinadas coisas, justamente, para juntar tudo no final, porque o que nós chamamos de palavra do contador de história é algo que envolve corpo, gesto, expressão, olhar, voz, entonação, ritmo, relação com o ouvinte. Tudo fala. O corpo fala. A expressão fala. O olhar fala. O silêncio fala.
Repórter - E como é que o contador vai fazer isso?
Gislaine - Ele precisa de um elemento fundamental a quem está contando história, que é a energia que está sentindo do auditório. Essa energia que o auditório vai mandar para ele é que vai fazer com que o seu texto mude para um lado ou para o outro. A história é a mesma, mas a forma como ela será contada muda. Às vezes a mesma história, numa platéia, vai sair solene, sóbria, filosoficamente densa, reflexiva e numa outra platéia, vai parecer uma comédia, porque o que o público está mandando vai fazendo com que essa história se construa de uma forma diferente..
Repórter - A contação é só um monólogo ou você pode contracenar com outro contador?
Gislayne - Você pode trabalhar com outros contadores. Nós vamos trabalhar juntos nessa história. A pessoa vai contar uma parte, eu conto outra parte e a gente pode interferir na parte um do outro. Eu faço esse trabalho com meus alunos. Não pode ser um jogral escolar, do tipo “eu vou até aqui, você vai até aqui”. Tem que ter uma forma de contar, falar de um para o outro. É preciso saber a forma de entrar novamente. Na hora que ele está com a palavra, a palavra é dele, mas ele sempre volta ao lugar do narrador. Mesmo que interprete personagens, ele volta. Como narrador, ele testemunhou, ele viu. Se aparecer outra situação ele vai lá, interpreta e volta. Ele não é nenhum personagem e é todos os personagens. E é o narrador. Podemos sair brincando de forma que a história fique absolutamente orgânica naquilo que está acontecendo.
Repórter - É um processo de improviso?
Gislayne - É improviso não no sentido da bricolage, nem do feito de qualquer jeito. Para
alguém desenvolver a capacidade de improvisar, precisar fazer um belo trabalho consigo mesmo. Uma pessoa que não tiver confiança nas suas condições de improvisar, vai se perder. Os exercícios de improviso são fundamentais na preparação do contador de história. Acontece uma situação alheia no meio da contação e é natural que as pessoas saiam da história e prestem atenção à outra coisa que está acontecendo. E a forma que o contador tem de manter a atenção é trazer essa situação para dentro da história. Ele tem que improvisar naquela hora, para trazer o público de volta. São coisas que não estavam no texto e que você tem que criar na hora. O contador não fica agarrado ao texto, não decora o texto. O texto está em aberto, qualquer coisa que acontecer ali vai fazer parte da história. A energia que o público está mandando, a luz que se apagou, a tempestade lá fora, tudo isso vai integrar.
Repórter - Como é o formato do curso que você ministra?
Gislayne - Eu trabalho com os meus alunos em quarenta e oito horas de curso, que tem mudado de formato ao longo desses catorze anos. Atualmente ele tem sido feito na sexta-feira à noite e no sábado o dia inteiro, de quinze em quinze dias. Cada final de semana é um tema. Às vezes a pessoa começa do segundo, depois faz o primeiro. Porque cada tema é independente do outro.
Repórter - Existe algum modelo-padrão para o bom contador?
Gislayne - O último tema a ser abordado durante o curso é o estilo pessoal. As pessoas vêm com tudo que elas têm, com toda aquela parafernália que elas acham que é necessário para contar uma história. Elas vão começar a descobrir qual o seu estilo. Descobrir, por exemplo, que a mão dela conta sozinha a história. E também o olhar, com aquele olhar não se precisa de mais nada, pode-se contar só com os olhos. Nós vamos descobrir em cada pessoa o que mais lhe sobressai. Uma pessoa é mais intimista, com uma voz mais aveludada, começa mais tímida, e a partir do momento em que começa a adquirir prática, vai ousando mais e outras coisas vão acontecer. Começamos com as pessoas a partir do seu potencial, do que elas têm de melhor. Com uma pessoa que tem facilidade com a voz, trabalhamos muitas possibilidades vocais. Identificamos as possibilidades de cada pessoa e como ela pode trazer isso para o seu estilo pessoal, para construir a sua identidade de contadora de história. Depois de tudo isto, não se quer dizer que a pessoa esteja pronta. Ela identifica as habilidades necessárias para começar a contar história.E é contando que ela vai começar a ver onde é que está mais forte e onde está com deficiência. No início as pessoas ficam muito tímidas e precisam da ajuda de algum apoio, de uma muleta.
Repórter - Numa apresentação rápida como esta no Recife, como se desenvolve o seu trabalho?
Gislayne - Faço uma apresentação contando histórias e depois trabalho com a platéia analisando aquilo que foi feito, o que viu e ouviu. É meta linguagem. Numa segunda ocasião, trabalho um tema que se chama Encantamento de Palavras. Como é que eu encanto as minhas próprias palavras. Eu só posso encantar as minhas palavras buscando em mim mesmo os recursos para isso. Então, eu preciso de algo que dê vida a elas, senão as palavras são mortas. Como eu vou buscar na minha própria experiência de vida, na minha própria história, as situações que eu vou trazer para minha narração? Às vezes eu me lembro de alguma coisa que a minha avó dizia e isso é precioso, isso pode passar a ser uma abertura nas minhas histórias, pode passar a ser uma máxima, um ditado nas minhas histórias. E quando eu digo isso, eu estou despertando em mim o afetivo, que se vai transmitir para o outro, inevitavelmente. Eu não estou falando de alguma coisa fria, estéril. Estou falando de uma vivência, que me remete a uma memória afetiva, que eu vou transmitir para o outro. Trabalhamos em cima de memórias. Eu encanto as minhas palavras através da memória. E para fazer isso eu tenho que me recordar de mim mesma
Repórter - O que é ser uma contadora de histórias?
Gislayne - Eu sou neta de um grande contador de histórias e eu me considero a herdeira da palavra contadora do meu avô, porque de todos os netos fui eu que continuei essa tradição. Ele contava, eu ouvia e eu comecei a inventar histórias também. Mas eu fui me profissionalizar nessa área muito mais tarde. Comecei a trabalhar com histórias no contexto terapêutico, fazendo terapia familiar sistêmica. Passei a utilizar as histórias das famílias que vinham e contavam a sua trajetória. Depois fiz uma especialização em arte-terapia e arte-educação e comecei a utilizar os contos de forma mais focada no processo terapêutico. Em seguida fui trabalhar a arte de contar histórias. Tudo isso foi mais ou menos simultâneo.
Repórter - A contação de histórias é uma forma de arte?
Gislayne - Algumas pessoas dizem que isso não é uma arte. E eu também acho que a contação de histórias não é uma arte, mas um ofício. Um ofício que, como todos os outros, tem seus instrumentos, seus métodos, suas técnicas. Há pessoas que podem desempenhá-lo com maior ou menor facilidade, mas todo mundo pode desempenhar esse ofício.
Repórter - O ofício de contador de histórias tem relação com a arte de representar, ou qualquer pessoa pode exercê-lo?
Gislayne - Todo mundo conta história. A gente conta história todo o tempo. O texto do contador de história precisa encantar o seu ouvinte. É preciso que o ouvinte saia da realidade do seu dia-a-dia e se transporte para um outro espaço interno, seu, um espaço onde no seu imaginário ele vai construir os cenários, as situações que o contador sugere.
Repórter - A contação reúne realidade e ficção?
Gislayne - Eu vou contar um causo, uma história que aconteceu com Dona Maria, que estava ali na esquina. Ele faz parte da história da comunidade, todo mundo o conhece. O Nordeste é cheio de causos. Minas Gerais é cheio de causos. Em todos os lugares onde as pessoas, até um tempo atrás, tinham tempo de colocar uma cadeira na calçada e falar das coisas da vida, do mundo e dos vizinhos, gerou-se uma riqueza muito grande nessa nomenclatura de causos, que são anedóticos, não têm um conteúdo do maravilhoso, do transcendente, do ficcional. Eles falam de realidades. A história que o contador vai contar vai colocar também o maravilhoso, vai trabalhar o imaginário, vai criar situações que são diferentes do que ocorre na realidade concreta.
Repórter - E como é a sua contação?
Gislayne - A primeira coisa que quero dizer é que as histórias não são para as crianças, embora as crianças adorem histórias. Inicialmente, as histórias não tinham intenção de distrair crianças, elas eram formas metafóricas de dizer das coisas da vida e de como lidar com elas. Eram dirigidas às pessoas adultas, e nesses serões de contos todas as gerações estavam juntas. Isso acontecia num modelo de sociedade anterior à modernidade, com todas as suas tecnologias, com novas formas de comunicação. As diversas gerações sempre estavam juntas em torno da palavra. O contador começava contando as histórias de que as crianças também gostavam, como as advinhas, travas línguas, pequenas anedotas. E à medida que as crianças iam dormindo, aí os contos iam mudando de contexto, começavam a ficar mais picantes, mais filosóficos. Mas, o serão de contação de história tinham por público as pessoas de todas as gerações. O conto fala da alma humana. Ele nos ensina a estar nesse mundo de uma forma melhor.
Repórter - Como é o curso de contação de história que você ministra?
Gislayne - Existem temas importantes que eu acho que a gente deve abordar na formação de um contador de história. O primeiro é o da palavra, da letra à voz. Eu trabalho com os contos de tradição oral, que não são assinados por autores, pertencem a toda a humanidade e fazem parte do inconsciente coletivo. Eu encontro um conto no Nordeste, que na realidade foi encontrado na Índia há muitos séculos antes de Cristo. E esse mesmo conto eu encontro no mundo árabe. Os contos têm essa capacidade de viajar na voz dos contadores de história. Antigamente, os contadores aprendiam a contar histórias com os outros contadores, escutando e memorizando a partir daquilo que escutavam e viam. O contador contemporâneo precisa pesquisar na escrita, porque esses contos foram recolhidos e por um bom tempo ficaram guardados, como coisas sem importância. A escrita é um museu de palavras. Porque a palavra, quando eu estou falando com você, ela é viva, não é só palavra, tem uma entonação, um ritmo. Eu olho nos seus olhos e vejo se você está gostando ou não. Se não, eu dou uma quebrada no discurso para o outro lado. Eu quero lhe encantar com a minha palavra. Na escrita não tem nada disso. Se você ler isso hoje ou daqui a um século, é a mesma coisa. Na oralidade não é assim. A oralidade é orgânica, viva, vai mudando o tempo inteiro.
Repórter - Uma história vira muitas histórias na voz do contador?
Gislayne - Eu te conto uma história hoje, amanhã eu posso te contar a mesma história e ela não será da mesma forma. Eu vou manter a estrutura, os personagens são os mesmos, mas dependendo do público, a história sairá completamente diferente. Uma coisa que acontece com os contadores que já estão no caminho a mais tempo, que têm uma certa familiaridade com os personagens, com as histórias, é que depois de muito tempo contando uma história, às vezes o personagem o surpreende, apresentando um lado que nunca tinha sido revelado.A contação de história é uma coisa viva, dinâmica. É tirar um conto do registro escrito e jogá-lo de volta na corrente da oralidade. Os códigos na linguagem escrita são uns, e na oralidade são outros. Aquilo que esteticamente é muito bonito na linguagem escrita, na oral não provoca nenhuma sensação. Porque são registros e abordagens diferentes. Quando eu escuto e quando eu leio, são coisas diferentes que vão ser mobilizadas em mim. Eu trabalho as diferenças dos códigos.
Repórter - O que é necessário para ser um bom contador de história?
Gislayne - A primeira coisa que um contador de história precisa saber é que um contador não decora a história. Um contador que decora a história não é um contador. Antigamente, os Aedos decoravam a Odisséia, a Ilíada, ditos num ritmo poético e com toda uma marcação, porque era uma transmissão sagrada, sempre a mesma coisa. O contador de história faz um outro trabalho. Nas sociedades em que a transmissão dos saberes é através da oralidade, existem vários tipos de contadores. O que transmitem os grandes contos, da criação e dos mitos, aquilo que funda aquela civilização. Esse contador vai ser absolutamente estrito, não vai inventar nada, vai repetir, como ele aprendeu, ouvindo.Existe o outro tipo de contador que vai brincar com a história. Cada um com sua especialização. Hoje, como somos de uma cultura escrita, nós temos o cronista, o jornalista, o articulista, o colunista, o escritor de literatura, o de poesia.
Repórter - Todos eles são contadores de história?
Gislayne - Todos eles trabalham com a palavra escrita. Antigamente, como a transmissão era através da oralidade, nós tínhamos também vários tipos de contadores, todos trabalhavam com a palavra. Um com a palavra mítica, sagrada, que não podia ser modificada. Outro era o contador que ia criar na cena da performance, e hoje é o que vemos nos nossos contadores. Esse é contador que tem direito a mentir. Socialmente a mentira é aceita, vinda desse contador. Quando ele fala além da medida, o público costuma dizer: “contador, contador...” - e ele se desculpa, dizendo que foi traído pela “língua fogosa”.
Repórter - Como se dá um espetáculo de contação de história?
Gislayne - Depende, há várias formas de contar, a mais intimista, a mais interativa, onde o contador vai implicar o seu público nos seus contos.Ou então ele vai contar uma história mais introspectiva, e vai ser num outro tom, vai trabalhar com outra pausa, será outra coisa a acontecer ali. A coisa mais importante na formação de um contador de história é ele fazer o reconhecimento de dois códigos, saber que não tem que decorar e como se apropriar do texto. É diferente do teatro, em que ele vai precisar decorar, porque vai contracenar com outros personagens, e se começa a inventar, o outro personagem não vai saber o que fazer. O contador não decora. Ele tem uma forma de se apropriar das histórias que vai contar. Eu costumo dizer aos meus alunos que eu sei de cor pelo menos uns duzentos e cinqüenta contos e quando eu estou com a língua meio fogosa eu falo que são sete vezes setecentos. Por que eu sei tantos contos? Porque eu não decoro contos. Eu não consigo decorar nem o telefone da minha casa. Imagina se eu ia conseguir decorar um conto! E olhe que eu faço uma contação que dura uma hora e meia numa mesma história. Então há outra forma de apropriação. Para se apropriar dessa forma é preciso que você conheça os códigos da oralidade, que são diferentes dos códigos da escrita. Pela escrita eu ia ler vírgula por vírgula, parágrafo por parágrafo. Não é assim na oralidade.
Repórter - Quais são os outros temas que você trabalha com seus alunos?
Gislayne - São os gestos do contador de história, extremamente importantes. Eles têm que estar absolutamente inseridos naquilo que ele está dizendo, porque se ele fala uma coisa e o corpo diz outra, o ouvinte fica perdido, a viagem dele fica uma viagem meia-boca. O objetivo do contador é levar seu ouvinte a uma viagem, ao mar do imaginário. Outro tema importante que passo aos meus alunos é referente à fala do contador. Nós temos que juntar. É como se você colocasse o foco em determinadas coisas, justamente, para juntar tudo no final, porque o que nós chamamos de palavra do contador de história é algo que envolve corpo, gesto, expressão, olhar, voz, entonação, ritmo, relação com o ouvinte. Tudo fala. O corpo fala. A expressão fala. O olhar fala. O silêncio fala.
Repórter - E como é que o contador vai fazer isso?
Gislaine - Ele precisa de um elemento fundamental a quem está contando história, que é a energia que está sentindo do auditório. Essa energia que o auditório vai mandar para ele é que vai fazer com que o seu texto mude para um lado ou para o outro. A história é a mesma, mas a forma como ela será contada muda. Às vezes a mesma história, numa platéia, vai sair solene, sóbria, filosoficamente densa, reflexiva e numa outra platéia, vai parecer uma comédia, porque o que o público está mandando vai fazendo com que essa história se construa de uma forma diferente..
Repórter - A contação é só um monólogo ou você pode contracenar com outro contador?
Gislayne - Você pode trabalhar com outros contadores. Nós vamos trabalhar juntos nessa história. A pessoa vai contar uma parte, eu conto outra parte e a gente pode interferir na parte um do outro. Eu faço esse trabalho com meus alunos. Não pode ser um jogral escolar, do tipo “eu vou até aqui, você vai até aqui”. Tem que ter uma forma de contar, falar de um para o outro. É preciso saber a forma de entrar novamente. Na hora que ele está com a palavra, a palavra é dele, mas ele sempre volta ao lugar do narrador. Mesmo que interprete personagens, ele volta. Como narrador, ele testemunhou, ele viu. Se aparecer outra situação ele vai lá, interpreta e volta. Ele não é nenhum personagem e é todos os personagens. E é o narrador. Podemos sair brincando de forma que a história fique absolutamente orgânica naquilo que está acontecendo.
Repórter - É um processo de improviso?
Gislayne - É improviso não no sentido da bricolage, nem do feito de qualquer jeito. Para
alguém desenvolver a capacidade de improvisar, precisar fazer um belo trabalho consigo mesmo. Uma pessoa que não tiver confiança nas suas condições de improvisar, vai se perder. Os exercícios de improviso são fundamentais na preparação do contador de história. Acontece uma situação alheia no meio da contação e é natural que as pessoas saiam da história e prestem atenção à outra coisa que está acontecendo. E a forma que o contador tem de manter a atenção é trazer essa situação para dentro da história. Ele tem que improvisar naquela hora, para trazer o público de volta. São coisas que não estavam no texto e que você tem que criar na hora. O contador não fica agarrado ao texto, não decora o texto. O texto está em aberto, qualquer coisa que acontecer ali vai fazer parte da história. A energia que o público está mandando, a luz que se apagou, a tempestade lá fora, tudo isso vai integrar.
Repórter - Como é o formato do curso que você ministra?
Gislayne - Eu trabalho com os meus alunos em quarenta e oito horas de curso, que tem mudado de formato ao longo desses catorze anos. Atualmente ele tem sido feito na sexta-feira à noite e no sábado o dia inteiro, de quinze em quinze dias. Cada final de semana é um tema. Às vezes a pessoa começa do segundo, depois faz o primeiro. Porque cada tema é independente do outro.
Repórter - Existe algum modelo-padrão para o bom contador?
Gislayne - O último tema a ser abordado durante o curso é o estilo pessoal. As pessoas vêm com tudo que elas têm, com toda aquela parafernália que elas acham que é necessário para contar uma história. Elas vão começar a descobrir qual o seu estilo. Descobrir, por exemplo, que a mão dela conta sozinha a história. E também o olhar, com aquele olhar não se precisa de mais nada, pode-se contar só com os olhos. Nós vamos descobrir em cada pessoa o que mais lhe sobressai. Uma pessoa é mais intimista, com uma voz mais aveludada, começa mais tímida, e a partir do momento em que começa a adquirir prática, vai ousando mais e outras coisas vão acontecer. Começamos com as pessoas a partir do seu potencial, do que elas têm de melhor. Com uma pessoa que tem facilidade com a voz, trabalhamos muitas possibilidades vocais. Identificamos as possibilidades de cada pessoa e como ela pode trazer isso para o seu estilo pessoal, para construir a sua identidade de contadora de história. Depois de tudo isto, não se quer dizer que a pessoa esteja pronta. Ela identifica as habilidades necessárias para começar a contar história.E é contando que ela vai começar a ver onde é que está mais forte e onde está com deficiência. No início as pessoas ficam muito tímidas e precisam da ajuda de algum apoio, de uma muleta.
Repórter - Numa apresentação rápida como esta no Recife, como se desenvolve o seu trabalho?
Gislayne - Faço uma apresentação contando histórias e depois trabalho com a platéia analisando aquilo que foi feito, o que viu e ouviu. É meta linguagem. Numa segunda ocasião, trabalho um tema que se chama Encantamento de Palavras. Como é que eu encanto as minhas próprias palavras. Eu só posso encantar as minhas palavras buscando em mim mesmo os recursos para isso. Então, eu preciso de algo que dê vida a elas, senão as palavras são mortas. Como eu vou buscar na minha própria experiência de vida, na minha própria história, as situações que eu vou trazer para minha narração? Às vezes eu me lembro de alguma coisa que a minha avó dizia e isso é precioso, isso pode passar a ser uma abertura nas minhas histórias, pode passar a ser uma máxima, um ditado nas minhas histórias. E quando eu digo isso, eu estou despertando em mim o afetivo, que se vai transmitir para o outro, inevitavelmente. Eu não estou falando de alguma coisa fria, estéril. Estou falando de uma vivência, que me remete a uma memória afetiva, que eu vou transmitir para o outro. Trabalhamos em cima de memórias. Eu encanto as minhas palavras através da memória. E para fazer isso eu tenho que me recordar de mim mesma
sexta-feira, 6 de maio de 2011
quinta-feira, 5 de maio de 2011
Vontade de Allah
Nasrudin ouviu um homem religioso dizer, no meio de uma conversa:
"Seja feita a vontade de Allah".
E Nasrudin respondeu:
"Ela sempre se faz, qualquer que seja a situação".
"Como pode provar isso?", perguntou o homem.
"É simples. Se a vontade de Allah não fosse feita sempre, a minha seria feita, você não acha?" Questionou Nasrudin.
"Seja feita a vontade de Allah".
E Nasrudin respondeu:
"Ela sempre se faz, qualquer que seja a situação".
"Como pode provar isso?", perguntou o homem.
"É simples. Se a vontade de Allah não fosse feita sempre, a minha seria feita, você não acha?" Questionou Nasrudin.
Caçando Mosquitos
Um dia Mulla Nasrudin estava caçando mosquitos e pegou três. Ele disse à sua esposa:
"Peguei três. Um macho e duas fêmeas".
A esposa ficou surpresa. Ela disse:
"Como sabia que era um era macho e dois eram fêmeas?"
Ele disse:
"Dois estavam pousados no espelho e um no jornal!"
"Peguei três. Um macho e duas fêmeas".
A esposa ficou surpresa. Ela disse:
"Como sabia que era um era macho e dois eram fêmeas?"
Ele disse:
"Dois estavam pousados no espelho e um no jornal!"
Evidencia
Um vizinho de Nasrudin foi até a casa dele e falou: "Mulla, gostaria de pedir o seu burro emprestado".
"Sinto muito, vizinho." Disse Nasrudin, mas eu já o emprestei. Não está aqui".
Logo após Nasrudin ter dito isto, o burro zurrou lá dentro do estábulo de Nasrudin.
"Mas Nasrudin, como o burro não está? Acabo de ouví-lo daqui!" Disse o vizinho.
Nasrudin então bateu com a porta na cara do homem, mas antes disse, com bastante seriedade, o seguinte:
"Um homem que prefere acreditar na palavra de um burro ao invéz da minha, não merece que eu lhe empreste nada!"
"Sinto muito, vizinho." Disse Nasrudin, mas eu já o emprestei. Não está aqui".
Logo após Nasrudin ter dito isto, o burro zurrou lá dentro do estábulo de Nasrudin.
"Mas Nasrudin, como o burro não está? Acabo de ouví-lo daqui!" Disse o vizinho.
Nasrudin então bateu com a porta na cara do homem, mas antes disse, com bastante seriedade, o seguinte:
"Um homem que prefere acreditar na palavra de um burro ao invéz da minha, não merece que eu lhe empreste nada!"
Poque Casou? - Nasrudin
Mulla Nasrudin casou com uma jovem e linda mulher. Quando retornaram da lua de mel, a esposa foi reclamar ao seu melhor amigo sobre o hábito de beber de Nasrudin.
“Se você sabia que ele bebia, porque você se casou com ele?” Perguntou o amigo.
“Mas eu não sabia que ele bebia”, disse a jovem esposa, “até que uma noite ele chegou em casa sóbrio!”
“Se você sabia que ele bebia, porque você se casou com ele?” Perguntou o amigo.
“Mas eu não sabia que ele bebia”, disse a jovem esposa, “até que uma noite ele chegou em casa sóbrio!”
Faça-me Feliz - Nasrudin
“Porque você não pára de fazer críticas a mim, a todo o instante?” Disse Nasrudin à sua mulher! “Eu estou tentando tudo para te fazer feliz!”
“Há uma coisa que você ainda não tentou, mas que meu primeiro marido fez e me deixou muito feliz.” Disse a mulher de Nasrudin.
“E o que foi que ele fez?” Perguntou Nasrudin.
“Ele morreu!” Disse ela.
“Há uma coisa que você ainda não tentou, mas que meu primeiro marido fez e me deixou muito feliz.” Disse a mulher de Nasrudin.
“E o que foi que ele fez?” Perguntou Nasrudin.
“Ele morreu!” Disse ela.
terça-feira, 3 de maio de 2011
O VELHO, O JOVEM E O BURRO
Um velho viajava com um jovem e com um burro. O burro era conduzido por uma corda.
Quando estavam chegando a uma cidade, um grupo de crianças, no caminho da escola, começou a rir e a caçoar deles: " Que tontos! Vão à pé e o burro, cheio de saúde, anda sem fazer nenhuma força! Pelo menos o velho poderia montar o burro".
O velho então disse para o jovem: "Logo estaremos entrando na cidade e se não fizermos o que as crianças sugeriram, as pessoas vão caçoar de nós". Então o velho montou no burro e o jovem continuou a pé.
Mais adiante, pessoas de um grupo disseram: "Vejam! O velho está montado no burro e o pobre rapaz vai caminhando. O velho pode caminhar e o rapaz é que deveria estar montado no burro! Que absurdo!". O velho passou a andar, enquanto o rapaz seguiu montado no burro.
Encontraram mais adiante outras pessoas que disseram: "Que rapaz arrogante! O velho deve ser o seu pai ou seu professor e está andando, enquanto ela vai montado. Isso é contra as regras!" Decidiram que ambos montariam o burro.
Pouco tempo depois, novas pessoas disseram: "Vejam esses dois! Que agressão contra o pobre do burro! Seria melhor que levassem o burro nas costas pois ele parece estar quase morrendo".
De novo discutiram o assunto e acharam melhor adotar o comportamento das pessoas locais para que não parecessem idiotas. Arrumaram um bambú, penduraram nele o burro e colocaram as pontas do bambú sobre seus ombros e seguiram. Logo começaram a atravessar uma ponte na entrada da cidade. O burro tentou se rebelar, como fazem os burros, que não podem ser forçados facilmente, tentou escapar, porque achava aquela situação ridícula. Mas teve que se render pela pressão dos dois homens.
Bem no meio da ponte, várias pessoas se juntaram em volta dos viajantes dizendo: "Vejam que malucos! Nunca vimos idiotas tão grandes! Um burro é para ser montado e não carregado nos ombros. Vocês ficaram loucos?"
A multidão foi aumentando e o burro ficou tão agitado que saltou e caiu da ponte, tombando no rio e morrendo.
O velho e o rapaz desceram até o burro morto. Aí o velho disse ao rapaz: "Como esse burro, você vai morrer se ficar escutando o que os outros dizem, porque existem milhões de outros, cada qual com sua opinião. Jamais chegará a seu destino se não permanecer indiferente às diversas opiniões sobre o caminho que que você deve seguir, o caminho para o centro de seu mais íntimo ser".
História Sufi
Quando estavam chegando a uma cidade, um grupo de crianças, no caminho da escola, começou a rir e a caçoar deles: " Que tontos! Vão à pé e o burro, cheio de saúde, anda sem fazer nenhuma força! Pelo menos o velho poderia montar o burro".
O velho então disse para o jovem: "Logo estaremos entrando na cidade e se não fizermos o que as crianças sugeriram, as pessoas vão caçoar de nós". Então o velho montou no burro e o jovem continuou a pé.
Mais adiante, pessoas de um grupo disseram: "Vejam! O velho está montado no burro e o pobre rapaz vai caminhando. O velho pode caminhar e o rapaz é que deveria estar montado no burro! Que absurdo!". O velho passou a andar, enquanto o rapaz seguiu montado no burro.
Encontraram mais adiante outras pessoas que disseram: "Que rapaz arrogante! O velho deve ser o seu pai ou seu professor e está andando, enquanto ela vai montado. Isso é contra as regras!" Decidiram que ambos montariam o burro.
Pouco tempo depois, novas pessoas disseram: "Vejam esses dois! Que agressão contra o pobre do burro! Seria melhor que levassem o burro nas costas pois ele parece estar quase morrendo".
De novo discutiram o assunto e acharam melhor adotar o comportamento das pessoas locais para que não parecessem idiotas. Arrumaram um bambú, penduraram nele o burro e colocaram as pontas do bambú sobre seus ombros e seguiram. Logo começaram a atravessar uma ponte na entrada da cidade. O burro tentou se rebelar, como fazem os burros, que não podem ser forçados facilmente, tentou escapar, porque achava aquela situação ridícula. Mas teve que se render pela pressão dos dois homens.
Bem no meio da ponte, várias pessoas se juntaram em volta dos viajantes dizendo: "Vejam que malucos! Nunca vimos idiotas tão grandes! Um burro é para ser montado e não carregado nos ombros. Vocês ficaram loucos?"
A multidão foi aumentando e o burro ficou tão agitado que saltou e caiu da ponte, tombando no rio e morrendo.
O velho e o rapaz desceram até o burro morto. Aí o velho disse ao rapaz: "Como esse burro, você vai morrer se ficar escutando o que os outros dizem, porque existem milhões de outros, cada qual com sua opinião. Jamais chegará a seu destino se não permanecer indiferente às diversas opiniões sobre o caminho que que você deve seguir, o caminho para o centro de seu mais íntimo ser".
História Sufi
FORMA DE MORRER
Certa vez Nasrudin se viu em grandes apuros. Em uma viagem através de um país extranho foi confundido com um malfeitor foragido da justiça. Foi preso e condenado à morte.
Nasrudin quase não teve tempo de acreditar no que acontecia. Quando enfim percebeu a gravidade da situação, colocou uma forte intuição no sentido de se livrar daquilo. A forma, ele nem imaginava.
Como era comum naquele país, o condenado tinha o direito de satisfazer a sua última vontade.
Quando foi perguntado qual era a sua última vontade, Nasrudin disse:
"Escolher a forma da minha morte!"
O Juiz disse a Nasrudin: "Você foi condenado à morte e a forma como isso se dará não é relevante na questão. De que forma você quer morrer?"
Nasrudin, aliviado, respondeu: "De velho!"
Nasrudin quase não teve tempo de acreditar no que acontecia. Quando enfim percebeu a gravidade da situação, colocou uma forte intuição no sentido de se livrar daquilo. A forma, ele nem imaginava.
Como era comum naquele país, o condenado tinha o direito de satisfazer a sua última vontade.
Quando foi perguntado qual era a sua última vontade, Nasrudin disse:
"Escolher a forma da minha morte!"
O Juiz disse a Nasrudin: "Você foi condenado à morte e a forma como isso se dará não é relevante na questão. De que forma você quer morrer?"
Nasrudin, aliviado, respondeu: "De velho!"
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Pagamento Justo
Quando o dono do restaurante disse que o mendigo teria que pagar a fumaça da carne, Nasrudin pegou um saco de moedas de ouro, sacudiu-o perto da orelha do homem e perguntou:
- O que você está escutando?
- O tilintar das moedas.
- Muito bem - Disse Nasrudin. - Esse é o seu pagamento. O som das moedas é um ótimo pagamento para o cheiro da carne. Caso encerrado.
Retirado do livro “NASRUDIN” de Regina Machado
Editora Companhia das Letrinhas – 1994
- O que você está escutando?
- O tilintar das moedas.
- Muito bem - Disse Nasrudin. - Esse é o seu pagamento. O som das moedas é um ótimo pagamento para o cheiro da carne. Caso encerrado.
Retirado do livro “NASRUDIN” de Regina Machado
Editora Companhia das Letrinhas – 1994
Mendigos e Moedas
Certa vez o Mulá Nasrudin saiu da mesquita e perguntou a um mendigo sentado a rua:
"Você é preguiçoso?"
"Sim, Mulá."
"Gosta de sentar-se ai e fumar à toa?"
"Gosto."
"Aprecia beber com os amigos?"
"Sim, Mulá."
"Bem, chega", disse o sábio, e deu lhe uma moeda de ouro. Alguns passos diante, Nasrudin foi abordado por outro mendigo, que havia assistido à cena que pediu-lhe uma esmola.
"Você é preguiçoso?", perguntou o Mulá.
"Não, mestre", respondeu o mendigo.
"Gosta de sentar-se por aí e fumar à toa ?"
"Não, Mulá".
"Provavelmente gosta de beber com os amigos..."
"Não, mestre, só quero viver modestamente e rezar."
O Mulá deu-lhe então uma pequena moeda de cobre.
Inconformado o mendigo queixou-se:
"Porque você da um tostão a mim, um homem místico, que leva uma vida simples, enquanto deu uma moeda de ouro àquele preguiçoso e indolente?"
"Ah", respondeu o Mulá, "as necessidade dele são muito maiores do que as suas".
"Você é preguiçoso?"
"Sim, Mulá."
"Gosta de sentar-se ai e fumar à toa?"
"Gosto."
"Aprecia beber com os amigos?"
"Sim, Mulá."
"Bem, chega", disse o sábio, e deu lhe uma moeda de ouro. Alguns passos diante, Nasrudin foi abordado por outro mendigo, que havia assistido à cena que pediu-lhe uma esmola.
"Você é preguiçoso?", perguntou o Mulá.
"Não, mestre", respondeu o mendigo.
"Gosta de sentar-se por aí e fumar à toa ?"
"Não, Mulá".
"Provavelmente gosta de beber com os amigos..."
"Não, mestre, só quero viver modestamente e rezar."
O Mulá deu-lhe então uma pequena moeda de cobre.
Inconformado o mendigo queixou-se:
"Porque você da um tostão a mim, um homem místico, que leva uma vida simples, enquanto deu uma moeda de ouro àquele preguiçoso e indolente?"
"Ah", respondeu o Mulá, "as necessidade dele são muito maiores do que as suas".
A sanfoninha e as galinhas coloridas
Criavam galinhas.
Liduína trabalhava na fazenda como lavadeira e Zeizefo não pegava no pesado, se dizia chagado, perrengue pra lida no cabo da enxada. Possuía uma sanfoninha oito baixos e passava os dias no seu ranchinho de sapé tocando moda caipira.
Estranho é que no galinheiro do casal só havia galinhas coloridas, não da cor normal de galinha caipira mas cor de rosa, azul, verde, amarelo e roxo. Eles afirmavam serem de uma raça diferente, porém dos ovos que vendiam não saiam frangas nem galos de cor nenhuma. A raposa devastava o galinheiro de todo mundo, menos o deles, pois Zeizefo sabia rezas para espantar bichos predadores.
Ramiro e Bastiana moravam com os filhos ali perto. O sonho das crianças era aprender tocar sanfona.
Um dia, Zeizefo apareceu tristonho na casa de Ramiro, com a sanfoninha no lombo e foi logo dizendo:
—O cumpadi num quê comprá a sanfoninha prus minino não?
—Uai cumpade Izé, pra quê ta quereno vendê? Um trem qui ocê tem tanta istima, isturdia memo ocê falô qui essa sanfona é um fio que ocêis num teve.
—Na minha vontade ieu nunca qui mi separava dela não, mais a Liduína incasquetô cá idéia de querê ponhá dentadura na parte de riba da boca, e só cum dinhêro das galinha dela num dá pá pagá o home qui faiz. Ieu vô tê qui interá.
— Mais a cumadi ta certa, ficá sem dente é munto ruim memo.
—Cá pra nóis cumpadi, ieu acho bobage . Se Deus Nossu Sinhô queresse a gente de dente a vida intêra, num fazia ês duê e nem dirrubava ês, né memo? Pra mim dente só faiz farta na hora de chupá cana ô cumê guaiaba.
—Vortano no assunto da sanfoninha ...quanté qui o cumpadi tá pidino?
—Uai sô... Quanté qui ocê dá nela?
—Uai, ocê cunhece o ditado, né? O dono do boi é quem pega no chifre.
—Tava pensano im pidi um leitãozin da quês lá do seu chiquêro...
—Oia cumpadi pa sê franco cocê, num vale isso não. Ela já tá meia dirrubadinha...
—Só pru fora... Cumpá Ramiro... Só pru fora. Mode quê ela inda toca munta moda boa. As du Tunico e Tinoco ela inté sabi de có.
—No leitãozin num posso não, o trem anda custuso, serve umas cinco galinha gorda? Nóis inté tinha munta penosa, mais um bicho cumedô de galinha deu uma roçada nu galinhêro.
—Negoço feito! A oito baxo é sua!
Zeizefo dobrou o morro com as cinco galinhas nas costas enquanto o pai chamava Chiquita e Toizinho que pularam de alegria quando viram a sanfona. Era um sonho realizado!
Dali em diante os meninos cantavam todo dia até ficarem roucos. Já se viam cantando “na rádio”. Era uma desafinação de dar dó mas estavam felizes demais. Para os tios não tinha nada melhor que ouvir a Chiquita cantar Cafezal em flor, de Cascatinha e Inhana, Moreninha linda do Tunico e Tinoco, arrancavam lágrimas dos avôs ao cantarem Ipê florido do Liu e Léu.
Há um ditado que diz que alegria de pobre dura pouco. Num domingo ensolarado de agosto, o capim estalava de tão seco. O povo havia ido à casa de Ramiro para ouvir a cantoria das crianças. Por volta do meio dia a menina teve a infeliz idéia de mandar o irmão buscar um fogo lá dentro no fogão a lenha. Chiquita disse:
— Ô Toinzim vai lá no fugão e pega um tição... Vamu quemá o pasto, ieu vi o pai falano com o vô Joãozim antionte, qui tava quereno quemá pa modi brotá capim novo pás vaca.
Toinzinho foi correndo cumprir a ordem da irmã.
Meu avô dizia uma frase que eu não me esqueço. “Fogo morro arriba, água morro abaixo e muié quando qué... nada cerca” Então o fogo se alastrou pelo pasto o vento ajudou a esparramar mais ainda. Foi um Deus nos acuda! Quando o povo viu a fumaça o fogo já dobrava a encosta. Latas de água, galhos de ramo verde, vassouras pra tentar conter o incêndio que consumia todo o pasto. Alguns tiravam o gado para não morrer queimado, outros batiam com os ramos no capim para apagar, alguns capinavam tentando fazer aceiros pra evitar que pulasse fogo para as outras propriedades. Inocentes , Chiquita e o irmão assistiam aquilo tudo se divertindo muito e ainda gritavam:
— Vai Ti Oripe, corre, tira os bezerros!
—Corre Zé, larga de moleza!
—Vai tia Tereza, leva mais uma lata d’água!
Estava todo mundo estropiado e o gado chamuscado quando o fogo foi contido. Ao sair o avô das crianças ainda recomendou ao genro:
—Oia lá cumpadi Ramiro, num bati na Chiquita nem no Toinzim heim! Ês num sabi o que faiz... minino piqueno é assim memo...
Quem disse que o Ramiro não bateu?Foi a maior sova que os dois tomaram na vida, foi só o povo dobrar na estrada que o pai tirou a cinta e tundou os dois até fazer vergão. Mas isso não foi o pior, criança de roça daquele tempo tinha o couro curtido, o triste foi que o pai pegou a sanfoninha oito baixos botou nas costas e foi lá no Zeizefo dizendo que ia buscar as galinhas de volta.
Chorando, viram o pai dobrar o morro, no coração de Chiquita isso ficou gravado pra sempre. Sua tenra idade não lhe permitiu entender o motivo pelo qual o pai estava lhe tirando a sanfona. Só sei que junto com ela se foram seus dias de cantoria, nunca mais se ouviu Chiquita cantar Cafezal em flor.
— Cumpadi Zeizefo ieu vim devorvê a sanfona.
—Mais pra quê cumpadi? Os minino tava tão filiz cum ela.
—Mais os fedazunha botaro fogo no pasto ieu vô castigá os dois.
—Mas as galinha qui o cumpadi breganhô cumigo a Liduína já vendeu na cidade.
—Serve das otras, a Bastiana inté pidiu pá vê se a cumade troca naqués galinha de raça, ela qué uma cor de rosa e duas verdinha. Só ocêis qui tem essa raça de galinha.
Sem alternativa e querendo a sanfona de volta, Zeizefo foi lá ao terreiro e pegou três frangas coloridas da Liduína, que não estava em casa.
Poucos dias depois choveu muito naquelas bandas, Ramiro e Bastiana ficaram boquiabertos quando os meninos gritaram avisando:
— Paiêeeeeeeeee!!! mãêeeeeeeeeeee...as galinha cor de rosa e verde da cumadi Liduína tão disbotano e ficano da cor das franga qui a raposa pegô pá cumê.
Maria Mineira
Publicado no Recanto das Letras em 26/04/2011
Código do texto: T2932394
Liduína trabalhava na fazenda como lavadeira e Zeizefo não pegava no pesado, se dizia chagado, perrengue pra lida no cabo da enxada. Possuía uma sanfoninha oito baixos e passava os dias no seu ranchinho de sapé tocando moda caipira.
Estranho é que no galinheiro do casal só havia galinhas coloridas, não da cor normal de galinha caipira mas cor de rosa, azul, verde, amarelo e roxo. Eles afirmavam serem de uma raça diferente, porém dos ovos que vendiam não saiam frangas nem galos de cor nenhuma. A raposa devastava o galinheiro de todo mundo, menos o deles, pois Zeizefo sabia rezas para espantar bichos predadores.
Ramiro e Bastiana moravam com os filhos ali perto. O sonho das crianças era aprender tocar sanfona.
Um dia, Zeizefo apareceu tristonho na casa de Ramiro, com a sanfoninha no lombo e foi logo dizendo:
—O cumpadi num quê comprá a sanfoninha prus minino não?
—Uai cumpade Izé, pra quê ta quereno vendê? Um trem qui ocê tem tanta istima, isturdia memo ocê falô qui essa sanfona é um fio que ocêis num teve.
—Na minha vontade ieu nunca qui mi separava dela não, mais a Liduína incasquetô cá idéia de querê ponhá dentadura na parte de riba da boca, e só cum dinhêro das galinha dela num dá pá pagá o home qui faiz. Ieu vô tê qui interá.
— Mais a cumadi ta certa, ficá sem dente é munto ruim memo.
—Cá pra nóis cumpadi, ieu acho bobage . Se Deus Nossu Sinhô queresse a gente de dente a vida intêra, num fazia ês duê e nem dirrubava ês, né memo? Pra mim dente só faiz farta na hora de chupá cana ô cumê guaiaba.
—Vortano no assunto da sanfoninha ...quanté qui o cumpadi tá pidino?
—Uai sô... Quanté qui ocê dá nela?
—Uai, ocê cunhece o ditado, né? O dono do boi é quem pega no chifre.
—Tava pensano im pidi um leitãozin da quês lá do seu chiquêro...
—Oia cumpadi pa sê franco cocê, num vale isso não. Ela já tá meia dirrubadinha...
—Só pru fora... Cumpá Ramiro... Só pru fora. Mode quê ela inda toca munta moda boa. As du Tunico e Tinoco ela inté sabi de có.
—No leitãozin num posso não, o trem anda custuso, serve umas cinco galinha gorda? Nóis inté tinha munta penosa, mais um bicho cumedô de galinha deu uma roçada nu galinhêro.
—Negoço feito! A oito baxo é sua!
Zeizefo dobrou o morro com as cinco galinhas nas costas enquanto o pai chamava Chiquita e Toizinho que pularam de alegria quando viram a sanfona. Era um sonho realizado!
Dali em diante os meninos cantavam todo dia até ficarem roucos. Já se viam cantando “na rádio”. Era uma desafinação de dar dó mas estavam felizes demais. Para os tios não tinha nada melhor que ouvir a Chiquita cantar Cafezal em flor, de Cascatinha e Inhana, Moreninha linda do Tunico e Tinoco, arrancavam lágrimas dos avôs ao cantarem Ipê florido do Liu e Léu.
Há um ditado que diz que alegria de pobre dura pouco. Num domingo ensolarado de agosto, o capim estalava de tão seco. O povo havia ido à casa de Ramiro para ouvir a cantoria das crianças. Por volta do meio dia a menina teve a infeliz idéia de mandar o irmão buscar um fogo lá dentro no fogão a lenha. Chiquita disse:
— Ô Toinzim vai lá no fugão e pega um tição... Vamu quemá o pasto, ieu vi o pai falano com o vô Joãozim antionte, qui tava quereno quemá pa modi brotá capim novo pás vaca.
Toinzinho foi correndo cumprir a ordem da irmã.
Meu avô dizia uma frase que eu não me esqueço. “Fogo morro arriba, água morro abaixo e muié quando qué... nada cerca” Então o fogo se alastrou pelo pasto o vento ajudou a esparramar mais ainda. Foi um Deus nos acuda! Quando o povo viu a fumaça o fogo já dobrava a encosta. Latas de água, galhos de ramo verde, vassouras pra tentar conter o incêndio que consumia todo o pasto. Alguns tiravam o gado para não morrer queimado, outros batiam com os ramos no capim para apagar, alguns capinavam tentando fazer aceiros pra evitar que pulasse fogo para as outras propriedades. Inocentes , Chiquita e o irmão assistiam aquilo tudo se divertindo muito e ainda gritavam:
— Vai Ti Oripe, corre, tira os bezerros!
—Corre Zé, larga de moleza!
—Vai tia Tereza, leva mais uma lata d’água!
Estava todo mundo estropiado e o gado chamuscado quando o fogo foi contido. Ao sair o avô das crianças ainda recomendou ao genro:
—Oia lá cumpadi Ramiro, num bati na Chiquita nem no Toinzim heim! Ês num sabi o que faiz... minino piqueno é assim memo...
Quem disse que o Ramiro não bateu?Foi a maior sova que os dois tomaram na vida, foi só o povo dobrar na estrada que o pai tirou a cinta e tundou os dois até fazer vergão. Mas isso não foi o pior, criança de roça daquele tempo tinha o couro curtido, o triste foi que o pai pegou a sanfoninha oito baixos botou nas costas e foi lá no Zeizefo dizendo que ia buscar as galinhas de volta.
Chorando, viram o pai dobrar o morro, no coração de Chiquita isso ficou gravado pra sempre. Sua tenra idade não lhe permitiu entender o motivo pelo qual o pai estava lhe tirando a sanfona. Só sei que junto com ela se foram seus dias de cantoria, nunca mais se ouviu Chiquita cantar Cafezal em flor.
— Cumpadi Zeizefo ieu vim devorvê a sanfona.
—Mais pra quê cumpadi? Os minino tava tão filiz cum ela.
—Mais os fedazunha botaro fogo no pasto ieu vô castigá os dois.
—Mas as galinha qui o cumpadi breganhô cumigo a Liduína já vendeu na cidade.
—Serve das otras, a Bastiana inté pidiu pá vê se a cumade troca naqués galinha de raça, ela qué uma cor de rosa e duas verdinha. Só ocêis qui tem essa raça de galinha.
Sem alternativa e querendo a sanfona de volta, Zeizefo foi lá ao terreiro e pegou três frangas coloridas da Liduína, que não estava em casa.
Poucos dias depois choveu muito naquelas bandas, Ramiro e Bastiana ficaram boquiabertos quando os meninos gritaram avisando:
— Paiêeeeeeeeee!!! mãêeeeeeeeeeee...as galinha cor de rosa e verde da cumadi Liduína tão disbotano e ficano da cor das franga qui a raposa pegô pá cumê.
Maria Mineira
Publicado no Recanto das Letras em 26/04/2011
Código do texto: T2932394
Manuel Feijão
Dois casados viviam muito tristes por serem já velhos e não terem filhos, Vai a mulher disse uma vez:
— A cousa que eu mais queria neste mundo era ter um filho, ainda que ele fosse do tamanho de um feijão.
Passados tempos, quando menos o esperavam, velha teve um filho, tão pequerruchinho, tão pequerruchinho, que era mesmo do tamanho de um feijão. Criou-se o menino, e puseram-lhe o nome de Manuel Feijão; a mãe nunca tirava o sentido dele, e ainda assim muitas vezes o perdia. De uma vez foi botar umas gavelas ao boi, e entre elas tinha-se perdido Manuel Feijão e o boi engoliu-o. A mãe muito apoquentada começou a gritar por toda a parte:
— Manuel Feijão! Manuel Feijão!
Ele respondia dentro da barriga do boi:
— Crós, crós!
— Manuel Feijão, onde estás?
— Crós, crós! na barriga do boi.
A mãe pôs-se a aparar o que o boi fazia, e assim tornou a achar Manuel Feijão todo sujinho; lavou-o muito bem lavado, mas o pequeno era muito traquina, não tinha medo dos bois, e até os queria levar para o campo. Metia-se-lhe numa venta, e assim os guiava para pastar e para voltar para casa, e até para levar no carro o jantar ao pai.
De uma vez teve uma necessidade, e abaixou-se debaixo de uns feitos; ora andava por ali uma cabra a pastar, e indo comer os olhinhos do feito, engoliu Manuel Feijão. A mão ficou desta vez mais aflita porque o pequeno não aparecia; a cabra com as dores de barriga, corria por escombros e valados, mas sempre vinha dar à horta do pobre lavrador; por fim cansado de escorraçar a cabra, temendo que fosse coisa ruim, o pai de Manuel Feijão deu uma estourada na cabra, e matou-a, e atirou com ela para o meio da estrada. Veio de noite um lobo e comeu as tripas da cabra, e lá se foi Manuel Feijão aos tombos dentro da barriga do lobo. Começou a dar-lhe voltas nas tripas, e o lobo com as dores subiu-se por um pinheiro acima. Nisto vêm uns ladrões carregados com uns sacos de dinheiro, em cima de um macho; Manuel Feijão faz com que o lobo se atire lá de cima, arrebentou no meio do chão, e os ladrões fugiram espantados. Manuel Feijão assim que apanhou o lobo com as tripas de fora, saiu lá de dentro, e subiu para o macho, meteu-se dentro de uma orelha e começou a beliscá-lo. O macho botou a fugir, a fugir, e ele guiou-o para a casa do pai, e chegou à porta ainda de noite, a fazer muito estrupido. Perguntaram de dentro:
— Quem é que está aí?
— Ê Manuel Feijão, crós, crós!
A mãe reconheceu-o, veio abrir à pressa; abraçou-o, lavou-o, e o pai foi descarregar o macho e guardar os sacos de dinheiro, e foram todos muitos felizes.
Conto de fadas português. Recolhido por Téofilo Braga. Fonte: Fonte: Os melhores contos Populares de Portugal. Org. de Câmara Cascudo. Dois Mundos Editora, 1944.
— A cousa que eu mais queria neste mundo era ter um filho, ainda que ele fosse do tamanho de um feijão.
Passados tempos, quando menos o esperavam, velha teve um filho, tão pequerruchinho, tão pequerruchinho, que era mesmo do tamanho de um feijão. Criou-se o menino, e puseram-lhe o nome de Manuel Feijão; a mãe nunca tirava o sentido dele, e ainda assim muitas vezes o perdia. De uma vez foi botar umas gavelas ao boi, e entre elas tinha-se perdido Manuel Feijão e o boi engoliu-o. A mãe muito apoquentada começou a gritar por toda a parte:
— Manuel Feijão! Manuel Feijão!
Ele respondia dentro da barriga do boi:
— Crós, crós!
— Manuel Feijão, onde estás?
— Crós, crós! na barriga do boi.
A mãe pôs-se a aparar o que o boi fazia, e assim tornou a achar Manuel Feijão todo sujinho; lavou-o muito bem lavado, mas o pequeno era muito traquina, não tinha medo dos bois, e até os queria levar para o campo. Metia-se-lhe numa venta, e assim os guiava para pastar e para voltar para casa, e até para levar no carro o jantar ao pai.
De uma vez teve uma necessidade, e abaixou-se debaixo de uns feitos; ora andava por ali uma cabra a pastar, e indo comer os olhinhos do feito, engoliu Manuel Feijão. A mão ficou desta vez mais aflita porque o pequeno não aparecia; a cabra com as dores de barriga, corria por escombros e valados, mas sempre vinha dar à horta do pobre lavrador; por fim cansado de escorraçar a cabra, temendo que fosse coisa ruim, o pai de Manuel Feijão deu uma estourada na cabra, e matou-a, e atirou com ela para o meio da estrada. Veio de noite um lobo e comeu as tripas da cabra, e lá se foi Manuel Feijão aos tombos dentro da barriga do lobo. Começou a dar-lhe voltas nas tripas, e o lobo com as dores subiu-se por um pinheiro acima. Nisto vêm uns ladrões carregados com uns sacos de dinheiro, em cima de um macho; Manuel Feijão faz com que o lobo se atire lá de cima, arrebentou no meio do chão, e os ladrões fugiram espantados. Manuel Feijão assim que apanhou o lobo com as tripas de fora, saiu lá de dentro, e subiu para o macho, meteu-se dentro de uma orelha e começou a beliscá-lo. O macho botou a fugir, a fugir, e ele guiou-o para a casa do pai, e chegou à porta ainda de noite, a fazer muito estrupido. Perguntaram de dentro:
— Quem é que está aí?
— Ê Manuel Feijão, crós, crós!
A mãe reconheceu-o, veio abrir à pressa; abraçou-o, lavou-o, e o pai foi descarregar o macho e guardar os sacos de dinheiro, e foram todos muitos felizes.
Conto de fadas português. Recolhido por Téofilo Braga. Fonte: Fonte: Os melhores contos Populares de Portugal. Org. de Câmara Cascudo. Dois Mundos Editora, 1944.
sábado, 30 de abril de 2011
A menina que não falava
Certo dia, um rapaz viu uma rapariga muito bonita e apaixonou-se por ela. Como se queria casar com ela, no outro dia, foi ter com os pais da rapariga para tratar do assunto.
- Essa nossa filha não fala. Caso consigas fazê-la falar, podes casar com ela, responderam os pais da rapariga.
O rapaz aproximou-se da menina e começou a fazer-lhe várias perguntas, a contar coisas engraçadas, bem como a insultá-la, mas a miúda não chegou a rir e não pronunciou uma só palavra. O rapaz desistiu e foi-se embora.
Após este rapaz, seguiram-se outros pretendentes, alguns com muita fortuna mas, ninguém conseguiu fazê-la falar.
O último pretendente era um rapaz sujo, pobre e insignificante. Apareceu junto dos pais da rapariga dizendo que queria casar com ela, ao que os pais responderam:
- Se já várias pessoas apresentáveis e com muito dinheiro não conseguiram fazê-la falar, tu é que vais conseguir? Nem penses nisso!
O rapaz insistiu e pediu que o deixassem tentar a sorte. Por fim, os pais acederam.
O rapaz pediu à rapariga para irem à sua machamba, para esta o ajudar a sachar. A machamba estava carregada de muito milho e amendoim e o rapaz começou a sachá-los.
Depois de muito trabalho, a menina ao ver que o rapaz estava a acabar com os seus produtos, perguntou-lhe:
- O que estás a fazer?
O rapaz começou a rir e, por fim, disse para regressarem a casa para junto dos pais dela e acabarem de uma vez com a questão.
Quando aí chegaram, o rapaz contou o que se tinha passado na machamba. A questão foi discutida pelos anciãos da aldeia e organizou-se um grande casamento.
Conto tradicional de Moçambique
- Essa nossa filha não fala. Caso consigas fazê-la falar, podes casar com ela, responderam os pais da rapariga.
O rapaz aproximou-se da menina e começou a fazer-lhe várias perguntas, a contar coisas engraçadas, bem como a insultá-la, mas a miúda não chegou a rir e não pronunciou uma só palavra. O rapaz desistiu e foi-se embora.
Após este rapaz, seguiram-se outros pretendentes, alguns com muita fortuna mas, ninguém conseguiu fazê-la falar.
O último pretendente era um rapaz sujo, pobre e insignificante. Apareceu junto dos pais da rapariga dizendo que queria casar com ela, ao que os pais responderam:
- Se já várias pessoas apresentáveis e com muito dinheiro não conseguiram fazê-la falar, tu é que vais conseguir? Nem penses nisso!
O rapaz insistiu e pediu que o deixassem tentar a sorte. Por fim, os pais acederam.
O rapaz pediu à rapariga para irem à sua machamba, para esta o ajudar a sachar. A machamba estava carregada de muito milho e amendoim e o rapaz começou a sachá-los.
Depois de muito trabalho, a menina ao ver que o rapaz estava a acabar com os seus produtos, perguntou-lhe:
- O que estás a fazer?
O rapaz começou a rir e, por fim, disse para regressarem a casa para junto dos pais dela e acabarem de uma vez com a questão.
Quando aí chegaram, o rapaz contou o que se tinha passado na machamba. A questão foi discutida pelos anciãos da aldeia e organizou-se um grande casamento.
Conto tradicional de Moçambique
O Anel de Polícrates
Em pouco tempo cresceu sobremaneira o poder de Polícrates e sua fama se espalhou pela Iônia e por toda a Hélade; onde quer que guerreasse,era bem-sucedido. Possuía cem navios de cinqüenta remos, e mil arqueiros, e saqueava a todos sem distinção de pessoa. Dizia que, restituindo a um amigo os bens que lhe arrebatara prestava-lhe maior serviço do que se não lhe houvesse arrebatado nada. Ocupou várias ilhas e numerosas cidades do continente. A Amásis não passou despercebida a felicidade excessiva de Polícrates, e até lhe causou verdadeira inquietação. Como a prosperidade do amigo aumentasse, enviou-lhe, endereçada para a seguinte carta:
Amásis a Polícrates:
“Éagradável saber a gente que os negócios de seu amigo e aliado correm bem; todavia, a tua grande prosperidade não me apraz, pois sei quanto é invejosa a divindade. Preferiria, para mim e aqueles por quem me interesso, ora vitórias ora reveses, isto é, uma vida em que a boa e a má fortuna se alternem, a uma felicidade contínua e sem quebras. Com efeito, nunca ouvi falar de ninguém que não houvesse pago uma desmedida prosperidade com a sua completa ruína. Se quiseres atender ao meu conselho, faze o seguinte para remediar a tua boa sorte. Reflete sobre o que tens de mais valioso e cuja perda te acarretaria o maior desgosto, e deita-o fora, de sorte que nunca mais apareça diante dos homens. Se a Começar de agora a prosperidade não te chegar alternada com a desdita, lança mão deste método que te proponho."
Havendo lido atentamente a carta, Polícrates compreendeu o quanto era razoável o conselho de Amásis, e pôs-se a excogitar sobre qual de seus tesouros era aquele que, perdido, lhe daria maior amargura; e terminou achando que era uma esmeralda embutida num anel, obra de Teodoro de Samos, filho de Télecles. Resolveu,pois, atirar fora essa jóia, e procedeu assim:
Embarcou em um navio cinqüenta remadores; ele mesmo subiu a bordo, e ordenou que se dirigissem ao alto-mar; e, quando se achavam bem longe da ilha, tirou do dedo o anel e o lançou ao mar, à vista de toda a tripulação. Isto feito, voltou no navio para casa com ar muito aflito.
No quinto ou sexto dia subseqüente a esse fato, aconteceu-lhe o seguinte:
Um pescador apanhou um peixe grande e belo e, julgando-o digno de ser oferecido ao rei, foi ao palácio e pediu que o levassem a Polícrates. Atendido, assim lhe falou:
- Ao pegar este peixe, não achei justo, ó rei, embora viva do trabalho de minhas mãos, levá-lo ao mercado, pois me parece digno de ti e de tua majestade. Ei-lo, trouxe-o para ti.
Tal discurso agradou ao rei, que respondeu nestes termos ao pescador:
- Fizeste muito bem, e tuas palavras me são caras como teu presente. Estás convidado para o banquete.
Voltou a casa o pescador comovido com semelhante honra, enquanto os criados do rei se punham a esquartejar o peixe. No ventre dele encontraram o anel com a esmeralda, e cheios de alegria o retiraram para levá-lo ao rei, a quem disseram como o haviam encontrado. Logo imaginou Polícrates que devia tratar-se de coisa divina: escreveu a Amásis e contou-lhe tudo, o que fizera e o que sucedera depois, e mandou levar a carta ao Egito.
Depois de ler a carta de Polícrates, Amásis compreendeu que não estava no poder de um homem salvar outro do que deve acontecer, e que Polícrates necessariamente acabaria mal, pois tinha tão boa sorte que até o que atirara ao mar lhe voltava às mãos. Mandou, pois, um mensageiro anunciar-lhe que estava dissolvida a aliança. Assim fez para não sofrer ele também, na qualidade de amigo e aliado de Polícrates, quando sobre este se abatesse alguma desgraça terrível.
Fonte: Histórias de Heródoto.
Amásis a Polícrates:
“Éagradável saber a gente que os negócios de seu amigo e aliado correm bem; todavia, a tua grande prosperidade não me apraz, pois sei quanto é invejosa a divindade. Preferiria, para mim e aqueles por quem me interesso, ora vitórias ora reveses, isto é, uma vida em que a boa e a má fortuna se alternem, a uma felicidade contínua e sem quebras. Com efeito, nunca ouvi falar de ninguém que não houvesse pago uma desmedida prosperidade com a sua completa ruína. Se quiseres atender ao meu conselho, faze o seguinte para remediar a tua boa sorte. Reflete sobre o que tens de mais valioso e cuja perda te acarretaria o maior desgosto, e deita-o fora, de sorte que nunca mais apareça diante dos homens. Se a Começar de agora a prosperidade não te chegar alternada com a desdita, lança mão deste método que te proponho."
Havendo lido atentamente a carta, Polícrates compreendeu o quanto era razoável o conselho de Amásis, e pôs-se a excogitar sobre qual de seus tesouros era aquele que, perdido, lhe daria maior amargura; e terminou achando que era uma esmeralda embutida num anel, obra de Teodoro de Samos, filho de Télecles. Resolveu,pois, atirar fora essa jóia, e procedeu assim:
Embarcou em um navio cinqüenta remadores; ele mesmo subiu a bordo, e ordenou que se dirigissem ao alto-mar; e, quando se achavam bem longe da ilha, tirou do dedo o anel e o lançou ao mar, à vista de toda a tripulação. Isto feito, voltou no navio para casa com ar muito aflito.
No quinto ou sexto dia subseqüente a esse fato, aconteceu-lhe o seguinte:
Um pescador apanhou um peixe grande e belo e, julgando-o digno de ser oferecido ao rei, foi ao palácio e pediu que o levassem a Polícrates. Atendido, assim lhe falou:
- Ao pegar este peixe, não achei justo, ó rei, embora viva do trabalho de minhas mãos, levá-lo ao mercado, pois me parece digno de ti e de tua majestade. Ei-lo, trouxe-o para ti.
Tal discurso agradou ao rei, que respondeu nestes termos ao pescador:
- Fizeste muito bem, e tuas palavras me são caras como teu presente. Estás convidado para o banquete.
Voltou a casa o pescador comovido com semelhante honra, enquanto os criados do rei se punham a esquartejar o peixe. No ventre dele encontraram o anel com a esmeralda, e cheios de alegria o retiraram para levá-lo ao rei, a quem disseram como o haviam encontrado. Logo imaginou Polícrates que devia tratar-se de coisa divina: escreveu a Amásis e contou-lhe tudo, o que fizera e o que sucedera depois, e mandou levar a carta ao Egito.
Depois de ler a carta de Polícrates, Amásis compreendeu que não estava no poder de um homem salvar outro do que deve acontecer, e que Polícrates necessariamente acabaria mal, pois tinha tão boa sorte que até o que atirara ao mar lhe voltava às mãos. Mandou, pois, um mensageiro anunciar-lhe que estava dissolvida a aliança. Assim fez para não sofrer ele também, na qualidade de amigo e aliado de Polícrates, quando sobre este se abatesse alguma desgraça terrível.
Fonte: Histórias de Heródoto.
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sexta-feira, 29 de abril de 2011
Quando as águas foram mudadas
Certo dia, faz muito tempo, Khidr, o mestre de Moisés, dirigiu uma advertência ao gênero humano. Numa data determinada, declarou, todas as águas do mundo que não tenham sido especialmente guardadas desaparecerão. Serão então renovadas com uma água diferente e que fará os homens enlouquecerem.
Somente um homem prestou atenção à advertência. Recolheu bastante água e armazenou-a em lugar seguro, esperando que as águas mudassem de características.
No dia indicado as torrentes deixaram de correr, os poços secaram, e o homem que dera ouvidos à advertência, vendo o que ocorria, foi a seu refúgio e bebeu da água guardada no pequeno reservatório.
Quando notou, lá de seu abrigo, as fontes jorrarem novamente, desceu da colina e foi misturar-se aos outros homens. Comprovou que estavam pensando e falando de um modo inteiramente diverso do anterior, nem sequer tinham lembrança do que acontecera, tampouco de terem sido alertados por Khidr. Quando tentou dialogar com eles, percebeu que o julgavam louco, tratando-o com hostilidade ou compaixão, ao invés de compreendê-lo.
De início ele não bebeu da água renovada, retornando a seu refúgio e servindo-se diariamente da água que guardara. Mas, finalmente, resolveu beber da nova água por não poder suportar mais a tristeza de seu isolamento, comportando-se de maneira diferente dos demais. Bebeu a nova água e se tornou igual aos outros. Então se esqueceu inteiramente de tudo que se referia à água especial que armazenara. E seus semelhantes passaram a encará-lo como a um louco que fora devolvido à razão milagrosamente.
Parábola Sufi.
Somente um homem prestou atenção à advertência. Recolheu bastante água e armazenou-a em lugar seguro, esperando que as águas mudassem de características.
No dia indicado as torrentes deixaram de correr, os poços secaram, e o homem que dera ouvidos à advertência, vendo o que ocorria, foi a seu refúgio e bebeu da água guardada no pequeno reservatório.
Quando notou, lá de seu abrigo, as fontes jorrarem novamente, desceu da colina e foi misturar-se aos outros homens. Comprovou que estavam pensando e falando de um modo inteiramente diverso do anterior, nem sequer tinham lembrança do que acontecera, tampouco de terem sido alertados por Khidr. Quando tentou dialogar com eles, percebeu que o julgavam louco, tratando-o com hostilidade ou compaixão, ao invés de compreendê-lo.
De início ele não bebeu da água renovada, retornando a seu refúgio e servindo-se diariamente da água que guardara. Mas, finalmente, resolveu beber da nova água por não poder suportar mais a tristeza de seu isolamento, comportando-se de maneira diferente dos demais. Bebeu a nova água e se tornou igual aos outros. Então se esqueceu inteiramente de tudo que se referia à água especial que armazenara. E seus semelhantes passaram a encará-lo como a um louco que fora devolvido à razão milagrosamente.
Parábola Sufi.
João Jiló
Há muito tempo, numa fazenda não muito longe daqui, morava um menino chamado João Jiló. Ele era muito levado, malcriado e teimoso. Gostava de fazer maldades com os animais, um dia, ele acordou e disse à sua mãe:
- Mãe, hoje eu acordei com uma vontade grande de caçar passarinho, eu vou sair e só volto quando conseguir pegar um bem bonito, gordinho e que dê para fazer um ensopado bem gostoso, viu?
A mãe de João Jiló lhe pediu:
- Mas, meu filho, eu já cansei de lhe falar que não se deve caçar passarinho! Olhe, a natureza é muito boa, mas, quando nós a maltratamos, ela nos castiga. Cuidado, João. Fique aqui. Deixe de ser teimoso!
Mas João já estava resolvido. Pegou seu bodoque e saiu caladinho. Quando chegou a floresta, logo ele viu um passarinho estranho. Muito diferente mesmo. Um pouco maior que os outros passarinhos e todo colorido. João pensou alto:
"Que sorte eu tenho!"
E pegou uma pedra, colocou no bodoque, mirou bem o passarinho. Quando ele ia atirar, o passarinho cantou:
- Não me mate não João Jiló!
Eu vim pra cantar,João Jiló!
Sou bichinho do mato, João Jiló!
Para piar!
Mas não adiantou, João Jiló atirou e acertou a cabecinha do passarinho, que caiu no chão com as perninhas pra cima.
Então, ele pegou o passarinho, colocou dentro da sacolinha e foi para casa. Quando chegou em casa, foi direto para cozinha. Começou a depenar o passarinho, quando ele cantou:
- Não me depene não, João Jiló!
Eu vim para cantar, João Jiló!
Sou bicho do mato, João Jiló!
Para piar!
E adiantou? Não. Aí que João Jiló tirou mesmo as peninhas do passarinho. Quando o passarinho ficou todo peladinho, João Jiló acendeu o fogo e já ia sapecá-lo, mas ele começou a cantar:
- Não me sapeque, João Jiló!
Eu vim pra cantar, João Jiló!
Sou bichinho do mato, João Jiló!
Para piar!
João Jiló nem ligou! Sapecou o passarinho no fogo. Depois, levou o coitadinho para a pia, pegou uma faca enorme para partir o passarinho, mas ele cantou:
- Não me parta, João Jiló!
Eu vim pra cantar, João Jiló!
Sou bichinho do mato, João Jiló!
Para piar!
Ele partiu o passarinho assim mesmo e o lavou bem lavadinho. Quando ele ia temperar o bichinho, ele cantou:
- Não me tempere não, João Jiló!
Eu vim pra cantar, João Jiló!
Sou bichinho do mato, João Jiló!
Para piar!
Depois, João Jiló, pegou uma panela, colocou óleo, pós para esquentar, mas, quando ia fritar o passarinho, ele cantou:
- Não me frita não, João Jiló!
Eu vim pra cantar, João Jiló!
Sou bichinho do mato, João Jiló!
Para piar!
Ele fritou o passarinho. Pegou um prato, e, quando ia comê-lo, o passarinho cantou:
- Não me coma não, João Jiló!
Eu vim pra cantar, João Jiló!
Sou bichinho do mato, João Jiló!
Para piar!
Ele comeu o passarinho todinho de repente, a barriga de João Jiló começou a inchar... A inchar... E ele ouviu uma voz vinda lá de dentro:
- Eu quero sair daqui, João Jiló.
E João Jiló respondeu:
- Então, saia pelo nariz!
E o passarinho:
- No nariz te meleca.
E João Jiló:
- Então, saia pelo ouvido.
E o passarinho:
- No ouvido tem muita cera.
E João Jiló:
- Então saia pela boca.
E o passarinho:
- Na boca tem saliva.
E a barriga de João Jiló foi inchando, foi inchando, foi inchando e... Bum! Explodiu!
O passarinho saiu voando contente e cantando:
- Eu sobrevivi, João Jiló!
Eu vim pra cantar, João Jiló!
Sou bichinho do mato, João Jiló!
Para piar!
Conto tradicional brasileiro
- Mãe, hoje eu acordei com uma vontade grande de caçar passarinho, eu vou sair e só volto quando conseguir pegar um bem bonito, gordinho e que dê para fazer um ensopado bem gostoso, viu?
A mãe de João Jiló lhe pediu:
- Mas, meu filho, eu já cansei de lhe falar que não se deve caçar passarinho! Olhe, a natureza é muito boa, mas, quando nós a maltratamos, ela nos castiga. Cuidado, João. Fique aqui. Deixe de ser teimoso!
Mas João já estava resolvido. Pegou seu bodoque e saiu caladinho. Quando chegou a floresta, logo ele viu um passarinho estranho. Muito diferente mesmo. Um pouco maior que os outros passarinhos e todo colorido. João pensou alto:
"Que sorte eu tenho!"
E pegou uma pedra, colocou no bodoque, mirou bem o passarinho. Quando ele ia atirar, o passarinho cantou:
- Não me mate não João Jiló!
Eu vim pra cantar,João Jiló!
Sou bichinho do mato, João Jiló!
Para piar!
Mas não adiantou, João Jiló atirou e acertou a cabecinha do passarinho, que caiu no chão com as perninhas pra cima.
Então, ele pegou o passarinho, colocou dentro da sacolinha e foi para casa. Quando chegou em casa, foi direto para cozinha. Começou a depenar o passarinho, quando ele cantou:
- Não me depene não, João Jiló!
Eu vim para cantar, João Jiló!
Sou bicho do mato, João Jiló!
Para piar!
E adiantou? Não. Aí que João Jiló tirou mesmo as peninhas do passarinho. Quando o passarinho ficou todo peladinho, João Jiló acendeu o fogo e já ia sapecá-lo, mas ele começou a cantar:
- Não me sapeque, João Jiló!
Eu vim pra cantar, João Jiló!
Sou bichinho do mato, João Jiló!
Para piar!
João Jiló nem ligou! Sapecou o passarinho no fogo. Depois, levou o coitadinho para a pia, pegou uma faca enorme para partir o passarinho, mas ele cantou:
- Não me parta, João Jiló!
Eu vim pra cantar, João Jiló!
Sou bichinho do mato, João Jiló!
Para piar!
Ele partiu o passarinho assim mesmo e o lavou bem lavadinho. Quando ele ia temperar o bichinho, ele cantou:
- Não me tempere não, João Jiló!
Eu vim pra cantar, João Jiló!
Sou bichinho do mato, João Jiló!
Para piar!
Depois, João Jiló, pegou uma panela, colocou óleo, pós para esquentar, mas, quando ia fritar o passarinho, ele cantou:
- Não me frita não, João Jiló!
Eu vim pra cantar, João Jiló!
Sou bichinho do mato, João Jiló!
Para piar!
Ele fritou o passarinho. Pegou um prato, e, quando ia comê-lo, o passarinho cantou:
- Não me coma não, João Jiló!
Eu vim pra cantar, João Jiló!
Sou bichinho do mato, João Jiló!
Para piar!
Ele comeu o passarinho todinho de repente, a barriga de João Jiló começou a inchar... A inchar... E ele ouviu uma voz vinda lá de dentro:
- Eu quero sair daqui, João Jiló.
E João Jiló respondeu:
- Então, saia pelo nariz!
E o passarinho:
- No nariz te meleca.
E João Jiló:
- Então, saia pelo ouvido.
E o passarinho:
- No ouvido tem muita cera.
E João Jiló:
- Então saia pela boca.
E o passarinho:
- Na boca tem saliva.
E a barriga de João Jiló foi inchando, foi inchando, foi inchando e... Bum! Explodiu!
O passarinho saiu voando contente e cantando:
- Eu sobrevivi, João Jiló!
Eu vim pra cantar, João Jiló!
Sou bichinho do mato, João Jiló!
Para piar!
Conto tradicional brasileiro
O kashkul
Conta-se que um dia um dervixe deteve um rei em plena rua.
- Como te atreves - disse o rei, - tu, um homem insignificante, a interromper os passos de teu soberano?
- E tu - replicou o dervixe, - como podes ser soberano se nem ao menos consegues encher meu kashkul, a tigela que uso para mendigar?
Ele ergueu o kashkul e o rei ordenou que o enchessem de ouro. Mas à medida que o enchiam de moedas elas desapareciam, e o kashkul parecia estar sempre vazio. Trouxeram-lhe fardos e fardos de ouro, e a surpreendente tigela os devorava.
- Parem! - gritou o rei. - Este ilusionista está esvaziando meu tesouro.
- Tu achas que estou esvaziando teu tesouro - observou o dervixe, - mas outros acham que estou simplesmente demonstrando a verdade.
- Que verdade? - perguntou o rei.
- A verdade de que o kashkul representa os desejos do homem, e o ouro o que se dá ao homem. A capacidade do homem para devorar não tem fim se ele não se transforma. Olha, o kashkul comeu quase toda tua riqueza, mas continua sendo uma casca de coco cortada, não se alterou em nada pela natureza do ouro. Se desejas, entra no kashkul - continuou o dervixe, - ele te devorará também. Como, diante disso, pode um rei pensar que é importante?
Parábola sufi
- Como te atreves - disse o rei, - tu, um homem insignificante, a interromper os passos de teu soberano?
- E tu - replicou o dervixe, - como podes ser soberano se nem ao menos consegues encher meu kashkul, a tigela que uso para mendigar?
Ele ergueu o kashkul e o rei ordenou que o enchessem de ouro. Mas à medida que o enchiam de moedas elas desapareciam, e o kashkul parecia estar sempre vazio. Trouxeram-lhe fardos e fardos de ouro, e a surpreendente tigela os devorava.
- Parem! - gritou o rei. - Este ilusionista está esvaziando meu tesouro.
- Tu achas que estou esvaziando teu tesouro - observou o dervixe, - mas outros acham que estou simplesmente demonstrando a verdade.
- Que verdade? - perguntou o rei.
- A verdade de que o kashkul representa os desejos do homem, e o ouro o que se dá ao homem. A capacidade do homem para devorar não tem fim se ele não se transforma. Olha, o kashkul comeu quase toda tua riqueza, mas continua sendo uma casca de coco cortada, não se alterou em nada pela natureza do ouro. Se desejas, entra no kashkul - continuou o dervixe, - ele te devorará também. Como, diante disso, pode um rei pensar que é importante?
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